quarta-feira, 12 de março de 2025

Marquesa é o tema do ‘Encontros Culturais’

Vida da figura histórica foi tema de livros, documentários, filmes e peças teatrais

Do Cruzeiro do Sul com edição do BPS

Domitila de Castro tem sua história ligada também a Sorocaba (Crédito: REPRODUÇÃO)

11/03/2025 |  O projeto “Encontros Culturais” tem como tema, nesta quinta-feira (13), a Marquesa de Santos, das 14h às 16h, no Gabinete de Leitura Sorocabano.

As reuniões das quintas-feiras sempre mostram temas ligados à História, Mitologia, Artes e Folclore, sob a coordenação do pesquisador José Rubens Incao, que apresenta os temas por meio de bate papo, apostilas e exibição de vídeos e músicas, buscando despertar o interesse dos participantes.

Domitila de Castro Canto e Mello , a Marquesa de Santos, nasceu na cidade de São Paulo em 1797. Filha do coronel reformado, João de Castro Canto e Melo, casou-se com o alferes Felício Coelho Pinto de Mendonça, com o qual teve três filhos. A separação do casal, no entanto, ocorreu em 1819 e o casamento foi anulado.

Em agosto de 1822, pouco antes da proclamação da independência, Pedro I, então regente do reino, realizou uma viagem a São Paulo e, na ocasião, conheceu Domitila. Levou-a para a corte, onde Domitila viveu por sete anos. A favorita residiu até 1829 junto ao paço de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, num palacete que o imperador lhe deu de presente, adaptado e decorado pelo artista Francisco Pedro do Amaral.

Introduzida na corte como primeira dama da imperatriz, Domitila recebeu o título de viscondessa de Santos em 1825 e foi elevada à marquesa no ano seguinte. Teve quatro filhos da ligação com D. Pedro I. Em 1829, a marquesa e o imperador romperam o relacionamento e ela voltou para São Paulo, passando a viver com o Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, um dos homens mais ricos da região e destacado político liberal, com quem teve seis filhos.

Em Sorocaba

Foi em Sorocaba, em 1842, durante a Revolução Liberal, que Domitila e Rafael Tobias se casaram oficialmente. Quando da chegada de Caxias, Brigadeiro Tobias partiu para o Sul e Domitila se abrigou no Convento de Santa Clara, voltando para São Paulo tempos depois. Após a morte do Brigadeiro Tobias, a Marquesa de Santos se dedicou ao auxílio a estudantes e necessitados, com doações e amparo que ainda hoje se fazem presentes. A sua residência no Centro de São Paulo se transformou em um centro cultural de memória paulistana. Faleceu em 1867, sendo sepultada no Cemitério da Consolação, cujo túmulo é um dos mais visitados do local.

A sua vida foi tema de livros, documentários, filmes e peças teatrais, com destaque para a obra “A Marquesa de Santos”, de Paulo Setúbal, publicada em 1925, pela editora Monteiro Lobato, atingindo sucesso editorial. A escritora Isabel Laureano Lopes, residente em Sorocaba, também publicou uma biografia da Marquesa, com o título “Rainha Sem Trono”. Atualmente, a mais completa biografia da Marquesa de Santos deve-se ao historiador Paulo Rezzutti.

Os Encontros Culturais acontecem todas as quintas feiras, das 14h às 16h e são gratuitos e abertos a todos os interessados. (Da Redação, com informações do Encontros Culturais)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2024

Gestão Tarcísio vai fechar escola centenária onde estudou Paulo Setúbal

Governador vai fechar a Escola Estadual de São Paulo, no centro da capital paulista, no próximo ano para a realização de obras de revitalização no Parque Dom Pedro 2º previstas para começar em 2026.


05/12/2024 |  SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) vai fechar a Escola Estadual de São Paulo, no centro da capital paulista, no próximo ano para a realização de obras de revitalização no Parque Dom Pedro 2º. A reforma no local, no entanto, só está prevista para começar em 2026.

Fundada em 1894, a escola é uma das mais antigas do estado. A unidade fica ao lado do parque e deixará de receber alunos já no próximo ano, ainda que a previsão de início das obras de revitalização seja apenas para um ano depois, no início de 2026.

Também não há previsão de intervenções no prédio escolar. Ainda assim, a Secretaria Estadual de Educação informou que a escola será “temporariamente desativada em 2025”.

A revitalização do Parque Dom Pedro 2º é de responsabilidade da gestão municipal de Ricardo Nunes (MDB). Prometida há anos, as obras vão ser feitas por meio de uma PPP (parceria público-privada) que nem sequer foi licitada —a sessão de licitação deve acontecer apenas no fim de janeiro de 2025.

“A decisão partiu de um entendimento firmado entre o município e o Governo do Estado, evitando qualquer risco aos alunos e funcionários”, disse a secretaria, em nota.

A pasta também informou que a tradicional escola não deve voltar a receber alunos no ensino regular. O plano da pasta é que, após o término das obras, a unidade volte a funcionar oferecendo cursos de educação profissional ou como CEEJA (Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos).

Os 130 alunos e 27 profissionais da escola foram apenas avisados do fechamento da unidade na terça-feira (3). Eles planejam um ato contra o encerramento das atividades no local.

Essa é mais uma ação do governo Tarcísio de fechamento de turmas na rede estadual paulista. Conforme mostrou a Folha de S.Paulo, a secretaria planeja fechar no próximo ano ao menos 96 turmas de ensino médio e EJA (Educação de Jovens e Adultos) que funcionam no período noturno das escolas estaduais.

Segundo a secretaria, todos os alunos e funcionários da EE de São Paulo serão “remanejados para outras unidades”. A pasta informou que planeja transferir parte dos alunos para a escola estadual Caetano de Campos, na Consolação, e outra parte para unidades na região central ou na Mooca. “Todos terão vagas garantidas em outras instituições na região.”

O governo Tarcísio não explicou por que decidiu fechar a escola um ano antes do início das obras no local.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirma que, “considerando todos os processos administrativos” envolvidos na licitação da PPP, as obras de modernização do Parque Dom Pedro 2º devem ter início em 2026, com prazo de até cinco anos para conclusão, conforme estipulado em contrato.

Presidente do grêmio estudantil da unidade, Eloá Guimarães, 17, diz que os alunos foram pegos de surpresa com a notícia do fechamento e ainda não sabem para onde serão transferidos no próximo ano.

“É um desrespeito muito grande com os estudantes e com os professores. Nós queremos a nossa escola aberta, queremos manter a nossa comunidade escolar. Como eles podem fechar uma escola da noite para o dia e mandar cada um para um lugar?”

A estudante diz que essa foi a melhor escola em que estudou durante toda a vida e está triste pelo fechamento. “A estrutura da escola é incrível, os professores são maravilhosos e muito próximos dos aluno. Algo que nunca vivi em outra escola.”

Além de ser uma das mais antigas e tradicionais da cidade, a Escola Estadual de São Paulo foi escolhida nos últimos anos para receber investimentos e integrar novas apostas educacionais dos governantes paulistas.

Em 2019, o governo estadual concluiu uma obra grande de restauro na unidade, com reposição de peças e materiais, substituição de piso de porcelanato para sala de ensaio e mezanino, entre outras melhorias.

Dois anos depois, em 2021, foi escolhida pela gestão João Doria para integrar uma das primeiras escolas que passariam a integrar o PEI (Programa de Ensino Integral). Ao aderir o modelo, a escola recebeu um aporte maior de recursos.

Em maio deste ano, a pasta disse ao blog São Paulo Antiga que estava fazendo uma nova série de reformas na unidade. Segundo a secretaria, estava sendo feito um investimento de mais de R$ 520 mil para “revitalização estrutural” da escola, com obras na área de alimentação, sanitários e na cobertura.

“Desde o começo do ano a escola está em obras e isso nunca atrapalhou nossas aulas. Não faz sentido terem gasto dinheiro, terem investido na estrutura para agora fechar a escola”, comenta Eloá.

As obras deveriam ter sido concluídas no início do segundo semestre letivo deste ano, o que não aconteceu. A secretaria não respondeu por que decidiu fechar a escola logo após reformar o espaço.

“Nenhuma justificativa foi dada à comunidade escolar. Isso é uma afronta ao princípio constitucional da gestão democrática do ensino e se revela como mais um ato autoritário e excludente da gestão Tarcísio, que vem fechando turnos e salas em toda a rede estadual”, diz denúncia apresentada pelo deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) ao Ministério Público.

HISTÓRIA

Fundada em 1894 com o nome Gymnasio do Estado de São Paulo, a escola por muitas décadas atendeu os filhos da elite paulistana. Ali passaram nomes como Cásper Líbero, Paulo Setúbal, Orígenes Lessa e o ator Francisco Cuoco.

A unidade tem um projeto arquitetônico arrojado, motivo pelo qual já foi objeto de estudo de alunos de arquitetura de universidades de todo o país. A escola é cercada por grandes árvores e se integra aos viadutos do entorno. Os prédios das salas de aula e o ginásio de esportes são inspirados nos pavilhões e na oca do parque Ibirapuera.

ISABELA PALHARES / Folhapress, com copidesque do DT

Para ver a matéria original, clique aqui.

domingo, 1 de setembro de 2024

Paulo Setúbal: poeta parnasiano dá nome à rua da cidade

Formado advogado, escritor nascido em Tatuí foi um dos mais lidos do país nos anos 20 e 30

Por Bruno Marques


01/09/2024 |  Pela lei nº 20 de 21 de junho de 1965, a via que liga a Avenida Invernada, no bairro Santa Cruz, até a Rua Lázara da Cruz Barbosa, no Bairro Castelo, recebeu o nome de Rua Paulo Setúbal.

Nascido na cidade de Tatuí, em 1º de janeiro de 1893, ficou órfão de pai aos 4 anos. Por indicação de um professor que acreditou em sua capacidade intelectual, foi levado para estudar na capital paulista.

Formou-se em direito, mas ficou conhecido por seus trabalhos como jornalista e principalmente como escritor e poeta parnasiano. Também foi deputado estadual por um breve período, entre 1928 e 1930.

Autor de contos, crônicas e poemas, destacou-se com o romance A Marquesa de Santos (1925) e O Ouro de Cuiabá (1933), se tornando um dos escritores mais lidos da país na época. Por seus temas, foi chamado de “poeta regional”.

Foi eleito em 6 de dezembro de 1934 para a Academia Brasileira de Letras na cadeira 31. Morreu três anos depois, aos 44 anos, devido à tuberculose, da qual sofreu por muito tempo.

(Do jornal Terceira Visão, de Valinhos SP)

terça-feira, 29 de agosto de 2023

Memorial de Cleonice Berardinelli guarda relíquia de Paulo Setúbal


Cleonice Berardinelli (Foto: Guilherme Gonçalves / ABL / Divulgação


29/08/2023 | O Real Gabinete Português de Leitura, no Centro, inaugurou nesta segunda (28) o Memorial Cleonice Berardinelli, em homenagem à imortal da ABL e especialista em literatura portuguesa, no dia em que se comemoraram os 107 anos de seu nascimento. 

Morta em janeiro deste ano, Cleonice Berardinelli (1916-2023), que frequentou o local constantemente entre 1947 e 2014, deixou parte do seu acervo para a instituição. São elementos biográficos (como fotos, cartas e objetos pessoais) e profissionais (como estudos, livros e prêmios), agora abrigados na Galeria dos Estuques, no segundo andar de um prédio anexo. 

Entre as relíquias, está o programa de um espetáculo de Paulo Setúbal, encenado no Teatro Municipal de São Paulo em 1926, em celebração ao centenário da imperatriz Lepoldina. A futura professora e pesquisadora, então com 10 anos, interpretou D. Maria da Glória, filha da monarca, e aparece numa foto em preto e branco. 

quarta-feira, 14 de junho de 2023

100 anos de Ursulino Leão: jurista, político e poeta

A inicialmente mencionada linha tênue, se é que podemos chamá-la assim, se deve ao fato de que tanto Ursulino Leão, quanto Paulo Setúbal, ao que se diz, conseguiram prever a própria morte.

Por Thiago Aguiar de Pádua, no Migalhas

13/06/2023 | Uma tênue linha imaginária de eventos liga a imortalidade ao escritor Ursulino Tavares Leão, poeta que ocupou a Cadeira XXIII da Academia Brasiliense de Letras - ABrL, a Cadeira XX da Academia Goiana de Letras, a Cadeira XXVIII da Academia Goiana de Letras Jurídicas, e que também foi o grande artífice criador e membro da Academia Crixaense de Letras.

Ursulino faleceu em 2018 e, se vivo estivesse, completaria 100 em 2023, embora alguns registros mencionem data distinta.

Foi advogado, Procurador do Estado de Goiás, e político, tendo sido ocasionalmente governador daquela unidade da federação, mas foi, antes de tudo, escritor e amigo das letras, alguém que publicou muitos e variados livros.

Seu último opúsculo, publicado após seu falecimento, traduz muito de seu espírito. Intitulado "Confiteor", a obra professa e consagra seu conservadorismo político e sua fidelidade católica, desde os preceitos reitores de seu humanismo.

Curiosamente, de fato, o mesmo título ("Confiteor") foi lançado por Paulo Setubal (1893-1937), igualmente em livro póstumo levado à cabo poucos meses após seu falecimento. Escritor e jurista, foi o terceiro ocupante da Cadeira XXXI da Academia Brasileira de Letras, cujo patrono foi Pedro Luis (1839-1884), aquele que teve a honra de ser chefe de Machado de Assis quando ocupou o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros, acumulando a pasta dos Negócios da Agricultura.

A inicialmente mencionada linha tênue, se é que podemos chamá-la assim, se deve ao fato de que tanto Ursulino Leão, quanto Paulo Setúbal, ao que se diz, conseguiram prever a própria morte, e assim conseguiram envidar esforços para lançar obras póstumas com o teor similar de suas "confissões".

Seguramente podem estar ocupando o mesmo canto do paraíso das letras jurídicas, se invocarmos aqui a imagem cunhada por Rudolf von Jhering em "Im juristichen Begriffshimmel: Ein Phantastiebild" (in: Scherz Und Ernst In Der Jurisprudenz, 1884), e podem estar, inclusive, colhendo (e provocando) outras confissões, nos diversos sentidos etimológicos e teológicos que ambos invocaram em suas obras póstumas. Aqui, a licença poética para a urdidura dos fios da suposta linha imaginária.

No entanto, não obstante o pretexto desta breve homenagem por ocasião do centenário de Ursulino Tavares Leão, fica mais que sugerido às novas gerações o conselho para que garimpem suas obras, escrutinem seus textos e mergulhem em suas conexões poéticas. Falo de sentimento próprio, por ser seu sucessor na cadeira XXIII da ABrL, e sobre quem pude conhecer minimamente ao pronunciar discurso de posse relembrando parte de sua obra.

Além disso, claro, queda incontornável a (inescapável) sugestão para que as instituições a que pertenceu Ursulino possam realizar variados eventos em sua homenagem, quebrando a calmaria da eternidade, tornando estridente o som do silêncio!

Thiago Aguiar de Pádua
Doutor em direito. Professor da Faculdade de Direito da UnB. Ex-assessor de ministro do STF. Autor do livro "O Common Law Tropical: o caso Marbury"(2023). Sócio de Aguiar de Pádua & Lima Advogados.

(Do Migalhas: https://www.migalhas.com.br/depeso/388112/100-anos-de-ursulino-leao-jurista-politico-e-poeta

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

PEDRO I: 11 LIVROS PARA QUEM DESEJA CONHECER SUA HISTÓRIA

Confira livros sobre D. Pedro I para garantir na estante

Do site Aventuras na História, publicado em 07/02/2023

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Se você se interessa pelo período Imperial da história do Brasil, está no lugar certo! Selecionamos 11 obras sobre o tema e sobre a vida de D. Pedro I para você conferir e garantir na estante.

Olha só:

1. D. Pedro: a história não contada, de Paulo Rezzutti: https://amzn.to/3Xana7n

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2. D. Pedro: imperador do Brasil e rei de Portugal, de Eugénio dos Santos: https://amzn.to/3x5Lmgx

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3. D. Pedro I: entre o Voluntarismo e o Constitucionalismo: https://amzn.to/3lhFBK6

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4. Titília e o Demonão: a história não contada, de Paulo Rezzutti: https://amzn.to/3RIfMin

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5. Às margens do Ipiranga, de Rodrigo Trespach: https://amzn.to/3YbDRkn

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6. Histórias não (ou mal) contadas: revoltas, golpes e revoluções no Brasil, de Rodrigo Trespach: https://amzn.to/40C3Wue

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7. As maluquices do imperador: 1808 - 1834, de Paulo Setúbal: https://amzn.to/40Fv37E

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8. D. Pedro I, de Isabel Lustosa: https://amzn.to/3llOWR2

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9. 1824, de Rodrigo Trespach: https://amzn.to/3Yc1Rn7

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10. Pedro I: compositor inesperado, de Ricardo Cravo Albin: https://amzn.to/3YwoRgr

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11. O coração do rei, de Iza Salles: https://amzn.to/40x6mul

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segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Sobre "As Maluquices do Imperador"

O coração do nosso pai

Por Danilo Sili Borges (*), na Jornal Tribuna (**)

14 de agosto de 2022



O Dia dos Pais é uma das datas mais festejadas do ano, só perdendo para o Natal e para o Dia das Mães.

Neste ano, em que a 7 de Setembro comemoraremos o bicentenário da Independência, cabe refletir sobre o nosso Pai, D. Pedro I, a figura histórica que formalmente concebeu o desligamento político do Brasil da metrópole portuguesa, cujo vínculo naquela altura durava 322 anos, ao proclamar e assinar o ato em que comunicava à corte portuguesa e ao mundo o desfazimento do vínculo da dependência que nos unia. Era um ato de coragem política e pessoal, que teria, como teve, consequências, mas já aguardado.

Do meu ponto de vista, não vejo, entre nós, ser dado a Pedro de Alcântara os créditos pelo seu ato, que o fez pôr em risco seu direito à coroa do milenar reino de Portugal e Algarve, como realmente ocorreu – que talvez não pretendesse para si, mas que a sucessão se desse por seus filhos – , tendo que obrigá-lo, em 1831, a retornar à Europa, promover uma guerra contra seu irmão Miguel, vencê-la, ocupar o trono com o título de Pedro IV, abdicar em favor de sua filha mais velha Maria da Glória, que governou aquele país por 19 anos, com o título de Maria II.

Feito esse preambulo, voltemos ao coração do Pai. Debilitado pelas guerras – o nosso e deles – Pedro, faleceu em 1834, aos 35 anos, no Palácio de Queluz, onde havia nascido. Por seu desejo expresso, seu coração foi levado e mantido na cidade do Porto. E é com fulcro nessa relíquia histórica que se desenvolve o restante dessa crônica.

Na minha juventude, os estudos de História eram feitos sobre vultos que pareciam não terem vidas reais, apenas existirem nos livros e darem as caras em datas a serem memorizadas para as provas de final de ano. Na adolescência, um amigo de escola emprestou-me um livro sobre a vida do nosso Imperador, que me fez cair em mim, e entender que as pessoas, mesmo as mais altas da hierarquia, são humanas, com suas fraquezas, necessidades e idiossincrasias. “Maluquices do Imperador”, de Paulo Setúbal, me apresentou ao jovem príncipe que escandalizou o Rio de Janeiro no início do século XIX, onde se abrigava com a família que fugira de Napoleão.

Nos prolegômenos da independência, quando a corte portuguesa exigia o retorno do príncipe rebelde, sua esposa Leopoldina de Habsburgo e José Bonifácio de Andrada e Silva, que entrou para a História com o justo título de Patriarca da Independência, ambos com vivências em culturas desenvolvidas, prestaram ao jovem príncipe, então com 24 anos, o suporte psicológico e estratégico para os seus atos.

A consolidação da independência e a integridade territorial do Brasil devem muito à coragem e às decisões de Dom Pedro I. Se naqueles primeiros meses de 1822, ele tivesse retornado à sua terra natal, onde era o herdeiro do trono, com grande probabilidade o território da América Portuguesa se teria desmembrado, tal como ocorreu com a América Espanhola. Devemos, além do Grito do Ipiranga, os nossos 8,5 milhões de quilômetros quadrados a Pedro I do Brasil, IV de Portugal.

Entendo que Pedro de Alcântara nunca teve entre nós os créditos que lhe são devidos. É pouco termos seus restos mortais repousando no Monumento à Independência a partir de 1972. Proponho, aqui e agora, que lhe seja conferido, oficialmente o título de Pai da Pátria, pela formalização da Independência e pelas ações corajosas que propiciaram nossa integridade territorial.

Por ter restabelecido a linha sucessória liberal em Portugal, lá é herói, tendo monumento na Praça do Rossio, na Baixa de Lisboa, que oficialmente é Praça Dom Pedro IV.

Para a organização dos festejos dos 200 anos da Independência, o governo brasileiro solicitou a Portugal que concedesse, por empréstimo, o coração de Dom Pedro para que estivesse presente em atos solenes das efemérides.

O pedido foi para que a relíquia histórica ficasse por aqui por 4 meses. O coração, conservado há quase dois séculos, está aos cuidados da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa e da municipalidade da cidade do Porto, que, com resistência, fizeram a concessão por prazo menor.

Avião da FA brasileira o trará em 22 de agosto, devendo permanecer entre nós até 8 de setembro. Excesso de zelo? Medo de que um coração que a maior parte da vida bateu por aqui não queira voltar?

Não quero pensar com a cabeça dos cuidadosos guardiões do coração de Pedro, mas talvez eles nos vejam como um Zé Carioca, aquele velho personagem do Walt Disney, simpático, engraçado, mas ……

Como cuidamos do nosso acervo cultural, só para lembrar:

Incêndio do Museu Nacional (2/9/2018, perda incomensurável):

Incêndio do MAM, Museu de Arte Moderna RJ (8/7/1978 – perda de obras de Salvador Dali, Joan Miró, Picasso, Henri Matisse, Rene Magritte, Portinari e Di Cavalcanti)

Roubo e destruição da Taça Jules Rimet, comemorativa do tricampeonato de futebol (20/12/1983).

Incêndio do Museu da Língua Portuguesa (21/2/2015 SP)

Tentativa de venda do Palácio Gustavo Capanema RJ (recente – arquitetura modernismo)

Que por aqui se cuide bem do coração do Pai da Pátria, Herói da Nação Luso-Brasileira.

E que o devolvamos íntegro, como aqui há de chegar!

Crônicas da Madrugada.

(*) Autor: Danilo Sili Borges, membro da Academia Rotária de Letras do DF. ABROL BRASÍLIA. Brasília – Ago.2022. 
danilosiliborges@gmail.com

(**)  Para ler a crônica em sua publicação original, clique no link abaixo.

domingo, 14 de agosto de 2022

Obra "Fatos e Fitas" traz crônicas sobre o Largo de São Francisco

Lançamento

Autoria é do advogado criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira.

Do site Migalhas

12/08/2022 -  Acaba de sair do prelo a obra "Fatos e Fitas - crônicas sobre o Largo de São Francisco" (Editora Migalhas), do advogado criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira. O trabalho é dedicado a seu pai, o desembargador e processualista Waldemar Mariz de Oliveira Júnior, "eterno acadêmico da São Francisco".

As crônicas, segundo o próprio autor, são desprovidas de rigor histórico e cronológico, mas foram "escritas com o espírito e com a alma desejosos de reverenciar a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco."

Em entrevista exclusiva ao Migalhas, o criminalista falou da importância do Direito em sua vida e contou detalhes do famoso episódio em que foi barrado na Faculdade pela letra ilegível.

Imagem: Divulgação | Antonio Cláudio Mariz de Oliveira

Por conta da sua letra, considerada ilegível, o senhor foi barrado na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Conte-nos um pouco mais sobre isso.

Nasci com letra ruim, vivi com ela pior e hoje não tenho mais esperança de que melhore. Foi por causa dessa letra que não consegui passar no vestibular do Largo São Francisco. Soube que estava estampado um carimbo de ilegível na redação de português porque o professor Fued Temer, um querido amigo de meu pai e meu, tomou a iniciativa de ver a minha prova, assim que soube da minha reprovação. Examinou-a e verificou essa anotação. Prestei vestibular também na Católica onde os examinadores foram mais complacentes ou eu melhorei milagrosamente minha letra. O teste da minha grafia foi apenas em uma prova, a de português, porque os demais exames foram orais. Ainda bem. Soube anos depois que pela mesma razão o ministro Sidnei Beneti fora também reprovado num primeiro exame que prestou no Largo São Francisco. Senti-me em ótima companhia. Serviu-me de consolo.

Quais são os laços que ligam o senhor ao Largo de São Francisco?

São laços que surgiram no meu berço de nascimento, quando vim ao mundo, porque meu pai estudava no terceiro ano da Faculdade quando nasci. Como morava com meus avós na rua do Riachuelo, atrás da Faculdade, por várias vezes ele levou-me ao centro acadêmico Onze de Agosto, ali localizado. Sempre ouvi histórias dos tempos de estudante contadas por meu pai. Acompanhei encontros que ele tinha com seus colegas de turma e em razão desses contatos, dessas histórias, impregnei-me do espírito acadêmico das Arcadas. Não obstante sempre ter desejado cursar a Faculdade, a Católica (PUC), onde me formei, representou um marco em minha vida, pois lá tive intensa vida acadêmica, fiz política, exerci a boemia, constituí sólidas amizades, fui brindado com professores excepcionais e conheci minha mulher, Angela, que foi minha colega de turma.

Narre um FATO e uma FITA do Largo de São Francisco.

Eu escrevi um livro com a denominação de "Fatos e Fitas", editado por Migalhas, narrando, de um lado fatos extraídos da realidade e de outro fitas frutos da imaginação, da ficção, do que não aconteceu, mas poderia ter acontecido. Esses fatos e fitas do livro pararam no final do século 19. Vou narrar fatos, e não fitas, que ocorreram durante a ditadura de Getúlio Vargas, quando os estudantes se empenharam com grande ardor na luta para o retorno da democracia. E o fato que cito diz respeito à prisão de meu pai no dia em que a Faculdade foi invadida, em 1943, quando ele e um colega foram presos descendo a rua do Riachuelo. Cada um deles foi agredido por cacetetes jogados dentro de um carro. Talvez como consequência da pancada, ou por nervosismo, o colega de meu pai começou a rir, dar gargalhadas, e papai entrou em pânico, pois no banco da frente havia um policial empunhando uma metralhadora, apontada para ambos. Embora papai mandasse o colega ficar quieto, os risos aumentavam de intensidade, o que gerava um maior pânico. Mercê da sorte e da proteção divina o policial passou a rir junto e o episódio, felizmente, não trouxe outras consequências a não ser uma detenção por alguns dias.

O Direito sempre esteve presente em sua vida. Como o senhor enxerga a evolução da advocacia no país?

Ao invés de utilizar a expressão evolução eu utilizaria mudanças operadas na advocacia. A primeira delas diz respeito ao avanço da tecnologia, tornando o advogado seu refém. Eu confesso que se não tivesse os meus companheiros de escritório provavelmente não estaria advogando hoje. O meu tempo é o do cartório, do juiz atendendo os advogados, oficial de justiça indo fazer citações, o manuseio dos processos, as conversas de corredores... Hoje esses aspectos tão presentes na minha vida sofreram sensível diminuição. A principal diferença por mim sentida e com certeza por advogados das gerações anteriores é a ausência do contato pessoal com os colegas e com demais personagens da família jurídica. Na advocacia criminal a mudança mais notável no meu entender foi operada com a criminalização dos delitos do colarinho branco. A classe economicamente privilegiada passou a se sentar nos bancos dos réus. Isso proporcionou a uma minoria de advogados honorários de maior vulto. Esse fato afastou tais advogados das raízes da advocacia criminal. A raiz é a cadeia. Os advogados que se dedicaram a defesa das classes mais abastadas, com as exceções que são devidas, deixaram de ter o que eu chamo de "cheiro de cadeia". Na minha opinião, a grande missão do advogado criminal é se tornar a vez e a voz daquele que não as tem. E quem não tem voz ou vez, e nunca as teve, são os que estão na cadeia, em sua maioria oriundos das classes menos favorecidas. São homens e mulheres que jamais tiveram consciência de sua cidadania, nunca souberam que são detentores de direitos e de garantias. E, é exatamente o advogado quando há uma acusação criminal que lhes põe em contacto com esses direitos, até então desconhecidos por si. Portanto, a advocacia criminal encontra a sua razão primordial nos cárceres, onde é cumprida essa missão e empresta à profissão nobreza e dignidade. Reitero uma confissão. Foi na cadeia que conheci a alma brasileira e foi na cadeia que eu me humanizei.

Liste seus 5 livros favoritos.

  1. Todos os livros de Francisco Marins
  2. Alma Cabocla, de Paulo Setúbal
  3. Os meninos da rua Paulo, de Ferenc Molnár
  4. Coração, de Edmondo de Amicis
  5. A montanha Mágica, de Thomas Mann

Para finalizar, uma frase que é o seu lema.

Ser a voz e a vez dos que não têm vez nem voz, como advogado; ser solidário, como cidadão; ouvir a intuição, como norte de vida.

Você pode ver este artigo em sua publicação original através do link abaixo;

segunda-feira, 30 de maio de 2022

O Quinto dos Infernos ganha nova reprise na TV

Para escrever O Quinto dos Infernos, Carlos Lombardi se baseou em livros que abordam de maneira inovadora o período do Primeiro Reinado, como “As Maluquices do Imperador”, de Paulo Setúbal.

By Redação O Canal

Minissérie O Quinto dos Infernos no canal Viva (Créditos: Divulgação/TV Globo)

27/05/2022 - A família real portuguesa está de volta ao canal Viva no dia 30 de maio, a partir das 19h30, em O Quinto dos Infernos.

Escrita por Carlos Lombardi e dirigida por Wolf Maya, a trama retrata de uma maneira bem-humorada os bastidores políticos do país da Independência do Brasil.

Com Marcos Pasquim no papel de Dom Pedro I, Betty Lago como Carlota Joaquina e André Mattos como Dom João VI, O Quinto dos Infernos começa em 1785 com a chegada de Carlota Joaquina em Portugal e passa por diversos momentos históricos como a chegada da família real no país, o início do Império no Brasil e a guerra civil em Portugal entre os irmãos Pedro e Miguel (Caco Ciocler).

Exibida originalmente em 2002 na TV Globo, a minissérie teve locações em Paraty, no Rio de Janeiro, e em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul. A cenografia foi inspirada em obras do inglês Thomas Ender e dos franceses Debret e Rugendas, com uma extensa pesquisa nos arquivos do Museu Histórico Nacional.

Para escrever O Quinto dos Infernos, Carlos Lombardi se baseou em livros que abordam de maneira inovadora o período do Primeiro Reinado, como “O Chalaça”, de José Roberto Torero; “A Imperatriz no Fim do Mundo”, de Ivani Calado; e “As Maluquices do Imperador”, de Paulo Setúbal.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

APENAS UM POUCO FRACO DO PULMÃO


2 de setembro de 2021

Paulo Setúbal (Divulgação)


Com amável dedicatória, recebi do admirável escritor Fernando Jorge a segunda edição, revista e muito ampliada, de seu livro “Vida, Obra e Época de Paulo Setúbal”, publicado pela Geração Editorial (S. Paulo – 2008). Como as demais biografias do Autor, é um trabalho minucioso e que esgota todas as fontes possíveis, respondendo a todas as indagações que possam ser feitas. Assim também acontece quando ele trata, neste volume, da estadia de Paulo Setúbal em Lages nos anos de 1919 e 1920, realizando um levantamento completo das atividades do escritor paulista naquela cidade serrana, valendo-se inclusive de informações de Nereu Corrêa em livro que ele enaltece pela seriedade da pesquisa.

O SINISTRO DIGNÓSTICO

Quando se constatou que ele “estava um pouco fraco do pulmão”, expressão usada para mascarar a tuberculose ou peste branca, o jovem escritor e jornalista foi aconselhado pelos médicos a procurar local de altitude mais elevada, clima saudável e ar puro. Os recursos de então eram ainda precários no combate à terrível enfermidade. Diante disso, ele se fixou por uns tempos em Campos do Jordão e, considerando-se curado, retornou à Paulicéia. Formou-se em Direito e entregou-se à advocacia, ao jornalismo e aos escritos, sempre com sucesso. Nesse período foi acometido da gripe espanhola que então grassava, salvando-se por milagre, o que levou os médicos a vetarem sua permanência na capital paulista. Seu irmão mais velho, João Batista Setúbal, era casado com a filha de um fazendeiro lageano e residia na chamada Princesa dos Campos. Dirigiu ao irmão um convite para passar uma temporada na cidade, cujo clima se recomendava ao tratamento dos fracos de pulmão. Paulo Setúbal logo aceitou, movido inclusive pelo desejo de aventura, e rumou para Lages.

ADOTADO PELA CIDADE

A cidade o encantou desde a chegada e sua simpatia pessoal, seu jeito extrovertido e conversador conquistaram de pronto a simpatia dos moradores. A comunidade o adotou sem restrições.

Era o único bacharel formado da cidade e seus anúncios logo apareceram nos jornais, oferecendo os serviços profissionais e registrando ser formado pela Academia de Direito de São Paulo. Em pouco tempo ficou cheio de serviço, foi contratado para alguns inventários e tratou deles com sucesso. Inventários, naquele meio onde imperava o latifúndio, constituíam os mais cobiçados e bem remunerados serviços advocatícios. “Ganhei fama e passei a trabalhar sem tréguas” – escreveu ele.

O DINHEIRO SE ESVAÍA

Mas o dinheiro ganho desaparecia como água pelo vão dos dedos. É que ele aprendera a jogar e se entregava “à paixão torturante das cartas” – segundo suas próprias palavras. Esquecendo-se da doença, passava noites em claro, em locais fechados, aspirando o ar viciado e a fumaça dos cigarros. Numa só jogada apostava todo o ganho de uma longa e trabalhosa causa. Não satisfeito, prosseguia nas noitadas pelos cabarés e boates da periferia, sempre acompanhado de bizarras figuras de tropeiros e negociantes de gado. Mas, ao que parece, vivia feliz, exercitando “a ânsia de viver, de mandar às favas a lembrança das horas negras” – para repetir o biógrafo.

E que mais fazia ele na cidade campeira que se estendia entre coxilhas ondulantes? Mantinha uma existência ativa, cheia, movimentada. Amante da natureza, percorria a cavalo as cercanias da cidade, enlevado com a luta dos peões, a lida braba dos rodeios, as correrias de homens de bombachas e chapéus de abas largas. Em redor do fogo, ouvia suas histórias e sugava mates amargos. Observava com intenso prazer “o mais admirável bosque de pinheiros que me foi dado contemplar” ao sol que se punha por trás da última coxilha.

NOS JORNAIS E NO CARNAVAL

Enquanto isso, os dois jornais da cidade – “O Planalto” e “O Lageano” – publicavam seus trabalhos, em prosa e verso, além de notas sobre suas atividades. Artigos, crônicas, contos, poemas românticos e humorísticos, comentários sobre temas históricos e do momento e até uma espécie de manifesto em favor de Rui Barbosa, candidato a presidente da República.

Para espairecer, “participou de um bródio, servido entre chalaças e ditos espirituosos, ao som de uma orquestra de flautas, violinos e cavaquinhos.” Aderiu de pronto ao animado carnaval da cidade, em 1919, e compareceu ao baile à fantasia, no Clube 1º. de Julho. À sua entrada, registrou um jornal, “voltam-se cabeças curiosas; fisionomias iluminam-se num sorriso acolhedor e travessos corações tremem… tremem num presságio de assalto irresistível.” O Dr. Paulo Setúbal era um sucesso na terra lageana.

NO JÚRI E OUTRAS TRIBUNAS

Atua em rumoroso julgamento pelo júri (ao que tudo indica o único), profere discursos e conferências de repercussão que são analisados e comentados pelos jornais. Produz e publica poemas e mais poemas. E advoga com intensidade.

Não obstante, continua a jogar e a cometer abusos contra a saúde frágil. Adoece, tem que guardar a cama, e se recupera, ansioso por voltar à vida ativa. Nas tardes de folga, comparece à roda que se forma na farmácia “do culto e verboso Otavinho Silveira. Ali encontrava vários amigos: o Dr. Nereu de Oliveira Ramos, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo; o Dr. Cândido de Oliveira Ramos, seu parente, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e que no desempenho de sua profissão havia prestado serviços ao exército sérvio, durante a Primeira Grande Guerra; o Dr. Walmor Argemiro Ribeiro Branco, primeiro lageano a formar-se em medicina; o jornalista Manuel Tiago de Castro, redator de “O Lageano.” Ali a boa prosa corria, como em geral nas boticas das pequenas cidades, enquanto o chimarrão fechava a roda. Relatou o referido farmacêutico que o governador Hercílio Luz havia convidado Setúbal para o cargo de Promotor Público da comarca, mas ele declinou. Essas informações foram colhidas pelo Autor do livro na obra de Nereu Corrêa.

BATE A SAUDADE

Estava em Lages há mais de um ano e as saudades começaram a bater. Apesar do sucesso pessoal e profissional, resolveu retornar à Paulicéia. A viagem até Florianópolis, que durou três dias, foi conturbada e cheia de incidentes, inclusive com o carro pernoitando, encalhado, num dos frequentes atoladores da estrada. Dorme num casebre humilde, acolhido por um casal muito pobre, e fica indignado com a sovinice de um fazendeiro, seu companheiro de viagem. Em São Paulo, retoma as atividades que o conduzirão à glória literária e à morte precoce, vitimado pela implacável peste branca.

O ESTÁGIO NÃO INFLUENCIOU 

Lages, com a reconhecida hospitalidade campeira, lhe abriu todas as portas e sua permanência ficou marcada para sempre na memória da cidade. Segundo Nereu Corrêa, no entanto, a experiência não se refletiu na obra do escritor e nenhuma influência exerceu sobre ela. Em seu livro “Confiteor”, Paulo recorda com saudade sua epopeia na Princesa dos Campos como um momento mágico de sua vida.


Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 59 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.

sábado, 31 de outubro de 2020

ARTIGO | Dia Nacional do Livro e o despertar do coração

29 de outubro de 2020


Por Anne Valerry* 

O despertar de um coração é algo emocionante. Ele bate fora do normal, arde, tremula as pernas e entorpece os sentidos. Não sei o que acendeu fagulhas dentro do meu e fez me apaixonar pelo universo dos livros. Eu só me lembro que a história ficou martelando em mim por dias.

Era a Marquesa de Santos, de Paulo Setúbal, poeta da minha querida Tatuí. Foi o primeiro livro que eu li entrando na adolescência. Domitila de Castro Canto e Melo e o nosso Imperador D. Pedro I se encontraram a poucas semanas do grito do Ipiranga e foram amantes por sete anos.

Confesso que eu me vi impactada em plena juventude e que ele me deixou fora do ar e em altos devaneios. Peguei carona nas nuvens, como se os meus sonhos fossem soprados com gentileza pelos bons ventos de uma história romântica e chocante.

Esse livro teve o poder mágico de me transformar e descortinar o mundo entre um homem e uma mulher. Depois disso, me senti estimulada a ler outros livros e caí de amores pelo o que eles me trouxeram e me contaram.

Foi, então, que decidi explorar o universo da leitura e desbravei as incógnitas internas com descobertas valiosas, e transformei-o em uma fonte inesgotável de conhecimento e emoções. Com um livro, a solidão se despede e apresenta vidas fascinantes, sem dias entediantes.

Por isso, eu leio, leio, leio… e vivo em constante mutação e muito bem acompanhada pelo que há de mais rico em nossa cultura: os livros. Mais que isso, construo as minhas próprias histórias, com as obras que escrevo como a de Victoire e Maurice, em a Dama das Lavandas, mais que um romance de época transmite lições importantes sobre empoderamento feminino, preconceito, machismo, luta de classes e ainda atenta as mulheres em relação às escolhas para o futuro.

E tenho orgulho, neste Dia Nacional do Livro, em despertar outros corações e emocionar mais e mais pessoas a amarem os livros e buscarem inspirações página por página.

*Anne Valerry é formada em Letras, é professora de português e espanhol e foi por muito tempo bailarina e coreógrafa. Seu primeiro romance publicado foi Uma linda história de amor. Recentemente lançou a obra A Dama das Lavandas. Ela gosta de retratar paixões tórridas, mas também bem-humoradas e repletas de ensinamentos.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Thales: “humano, demasiado humano”

por: Cecílio Elias Netto, em A Província

fonte: "A Tribuna Piracicabana", caderno especial na edição de 15/setembro/2020

15/09/2020 às 18:54

[artigo publicado, originalmente, no caderno especial produzido pelo jornal “A Tribuna Piracicabana”, em comemoração aos 130 anos de nascimento do escritor piracicabano Thales Castanho de Andrade – considerado o pioneiro da literatura infanto-juvenil brasileira]

Thales Castanho de Andrade. (imagem: arquivo IHGP)

Não me ocorrera antes, mas, agora, parece-me apreender – talvez, mais lucidamente – a agridoçura do livro “Saudade”, de Thales de Andrade. Pois é saudade o que estou sentindo. Uma estranha e esquisita saudade. Dele, saudade dele. De Thales Castanho de Andrade.

Na verdade, não consigo defini-la nem a mim mesmo. Ela, a saudade, veio devagar, de mansinho. Percebi-a dois dias após o Evaldo Vicente convidar-me a participar desta homenagem a Thales. Pelos seus 130 anos de existência. Pois, embora em outra dimensão, Thales de Andrade, o professor Thales, o escritor Thales – o Thales que me impulsionou à vida literária – esse Thales existe. Cada vez mais, como se prisioneiro ou refém da História.

Não ouso dizer esteja sendo o passado a renascer das cinzas. É algo mais concreto, mais real. Nestas horas, sinto ter entendido – e espero assim o seja – Thales de Andrade não ser, para mim, tão somente essa notável personalidade histórica, mas uma força muito além disso: ele é parte fundante de minha vida profissional. Como não o seria, se, nessa já longa estrada, Thales de Andrade esteve entre os que mais segurança me deram, quase que lançando-me abruptamente nessa misteriosa, fascinante, imprevisível aventura?

Foi aos meus 17 anos. (Ah! “Volver a los 17” – como já o cantara a incomparável Mercedes Sosa.) Numa certa tarde, João Chiarini – sempre ele, inesquecível João – foi à nossa casa à minha procura. Acompanhava-se de um intelectual de Tatuí, de nome Paulo, coordenador, então, da Semana Paulo Setúbal naquela cidade. Eles convidavam o jovem estudante –então, recém-saído do curso colegial – para ser um dos palestrantes das solenidades daquele ano. E, em ar desafiador, disseram-me: “Você irá proferir a palestra na mesma noite da fala de Thales de Andrade”. Falar em público, ao lado de Thales? Quis fugir.

Naquele mesmo momento, recebemos a visita de meu ex-professor de literatura e de línguas, o então padre Eduardo Affonso. A casa de meus pais era como um quintal sem muros, portas abertas aos amigos, vizinhos e, até mesmo, a estranhos. Morávamos no coração de Piracicaba e era quase um hábito das pessoas “ir tomar um cafezinho na casa de Dona Amélia e Seo Tuffi”. Meu professor entusiasmou-se e bradou: “Ele (eu) irá, sim. E tenho o tema para ele desenvolver: “As reticências de Paulo Setúbal!” Reticências… Uma quase criança tentar decifrar o que Paulo Setúbal deixara oculto em alma e coração, resumido a misteriosas reticências?

Jamais saberei se foi coragem, audácia, atrevimento ou irresponsabilidade juvenil. O fato é que preparei a palestra e lá me vi levado a Tatuí. No mesmo carro que transportava o Mestre Thales de Andrade. Não falei palavra durante a breve viagem. Tive medo, como se, por fim, desperto para a minha imprudência. O fato é que uma força inexplicável me moveu ao fazer o discurso, o público incendiou-se, os aplausos prolongaram-se e me vi aturdido, apalermado. Era como se o vulcão represado dentro de mim tivesse explodido, esvaziando-se e esvaziando-me.

Foi, então, que aconteceu a nobreza, a grandeza, a realeza de espírito daquele já idoso senhor, do escritor consagrado, do pioneiro da literatura infantil brasileira, de nome Thales Castanho de Andrade. Pois, ao se anunciar o seu discurso, ele se levantou pachorrenta e serenamente como era de seu feitio, cumprimentou o público e apenas informou: “Depois do que ouvimos desse moço, eu nada mais tenho a falar.” Olhou-me não sei se com ternura se cumplicidade e sentou-se. O público ovacionou-o. Todos compreenderam que, naquele momento, era a alma paterna, humana, generosa, compassiva de Thales de Andrade abrindo-se para agasalhar, em proteção, um jovenzinho iniciante.

Era o Thales revelando-se como realmente sempre foi: “humano, demasiado humano”. Como não lhe render graças?

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

5 obras sobre as vítimas de dom Pedro I

Maria Leopoldina, Dom Pedro I e Domitila de Castro protagonizaram um dos mais conturbados triângulos amorosos da História

VICTÓRIA GEARINI
Publicado no site Aventuras na História, em 07/01/2020

Respectivamente: Maria Leopoldina, Dom Pedro I e Domitila de Castro - Creative Commons


Crédito: Leya

A imperatriz D. Leopoldina ficou conhecida por conta de seu triângulo amoroso com Domitila de Castro e D. Pedro I. No entanto, esta obra apresenta a imperatriz por outro ângulo. O escritor Paulo Rezzutti reforça a figura complexa e carismática de Maria Leopoldina, a partir de um caderno de imagens inéditas e documentos originais.


Crédito: Geração Editorial

Em sua obra, o historiador Paulo Rezzutti apresenta a biografia completa de Domitila de Castro (1797 -1867), mais conhecida como a Marquesa de Santos. Considerada uma das mulheres mais conhecidas e influentes da América Latina, a marquesa teve um caso secreto com Dom Pedro I, que, segundo o escritor Paulo Setúbal, escandalizou a sociedade da época com o seu amor pelo primeiro imperador.


Crédito: Wikimedia Commons

A obra de Marsilio Cassotti revela fatos ocultos de cartas de Leopoldina, por meio de um tom intimista e ágil. Com rigor histórico, este romance aborda educação sentimental e política, em um contexto imperial brasileiro.


Crédito: Rocco Digital 

A renomada historiadora Mary del Priore reinventa a forma de contar a história do conturbado triângulo amoroso. Por meio de um conteúdo inédito, a escritora revela cartas de Dom Pedro I à sua amante e à sua esposa, além de escritos de Leopoldina ao marido e à irmã. Em paralelo com a história do Brasil e da cidade do Rio de Janeiro, a obra expõe momento intrigantes e de erotismo da família imperial.


Crédito: Leya

Para contar a história secreta de Dom Pedro I e a Marquesa de Santos, Paulo Rezzutti reuniu cartas trocadas pelos amantes, entre 1823 a 1829. O escritor revela em sua obra fatos curiosos, como os apelidos intrigantes do casal. Rezzutti resgatou os escritos em arquivos, encontrados nos Estados Unidos, e revela, ainda, aspectos do cotidiano do Primeiro Reinado.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

O Brasil nunca leu tanto (Raimundo Carrero)

Raimundo Carrero (*)


No princípio era apenas um livrinho chamado Português, quem sabe um dicionário e, com alguma sorte, uma gramática. Entre uma regra gramatical e outra um poema, quase sempre de Olavo Bilac, mais alguma coisa - conto ou crônica -, Raimundo Correia, talvez um parnasiano, e, é possível, um tanto de Machado de Assis da primeira fase, nem sempre o melhor. Estudava-se gramática, a literatura passava ao largo. Chamavam isso de leitura.

Mesmo assim, quem quisesse ler mais procurasse em alguma biblioteca interdita, livraria nem pensar. Jornal dependia muito da família, revista só com a autorização da família. Em certo canto escondido da sala, embaixo de sete chaves, um talvez Tesouro da Juventude, cheio de textos conservadores e tradicionalistas, destinado aos homens. Para as mulheres, exclusivamente, um texto de M. Delly, descoberta de norte-americanos para meninas que não desejassem nem sonhassem.

Imaginava-se que este este era o pseudônimo de uma religiosa ou educadora nem um pouco disposta e se apresentar, corria o risco de linchamento. Descobriu-se depois que era um casal de franceses disposto a vencer o puritanismo norte-americano. Os livros precisavam sempre de autorização da Igreja, do imprimatur de um cônego ou de um monsenhor. Literatura era coisa de depravados. Por isso mesmo as mulheres demoraram muito a se alfabetizar. Precisavam de autorização.

De minha parte tive muita sorte. Até os 12 anos pude ler, abertamente, os livros da biblioteca do meu irmão Francisco, que encontrei na loja do meu pai Raimundo Carreiro de Barros, em Salgueiro. Depois encontrei a biblioteca do meu irmão Geraldo, em casa de quem morei dois anos, quando saí do internato do Colégio Salesiano. E tem mais: nunca ninguém me proibiu de ler qualquer coisa. Li o que quis, sempre. Indiscriminadamente.

Muitas vezes saí correndo do colégio até a Rua da Imperatriz para comprar livros de Jorge Amado, Paulo Setúbal ou Graciliano Ramos. A nossa Rua da Imperatriz tinha três livrarias, além dos sebos, verdadeira instituição recifense, instalados no chão. Livros, livros e livros espalhados às pencas no centro da cidade, nas décadas de 60 , 70 e 80. A cidade começava a ler com vigor até hoje. Agora todos os colégios adotam livros de várias tendências e cores, desde os chamados infanto-juvenis até os mais sofisticados.

Os autores percorrem o país debatendo, analisando e questionando os estudante, com grandes resultados. Até o momento não existe censura de qualquer espécies e todos estão preparados para qualquer reflexão. E a literatura cresce com os prêmios internacionais. Até autores vivem da venda de livros.

* Jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras

terça-feira, 16 de outubro de 2018

É tão breve a vida…

JOSÉ RENATO NALINI 14/10/2018

Tristão de Athayde, pseudônimo de Alceu Amoroso Lima, foi um dos intelectuais mais completos que o Brasil já produziu. Começou a escrever como crítico literário, atividade que considerava alicerçada em um corpo de princípios, de uma concepção da vida, da arte e da literatura, em caráter docente.

Pois o crítico é um incentivador à leitura. Seu gosto, sensibilidade, emoção e espírito criador o vocacionam a gerar uma legião de leitores.

Uma das críticas de Tristão foi escrita em 1920 sobre o livro “Alma Cabocla”, de Paulo Setúbal. Encontra na poesia de Paulo Setúbal a emoção nesse momento impressionante em que ela se desprende da natureza, do cotidiano, do prosaísmo, para iniciar o seu caminho de arte.

Elogia a aproximação com a natureza, o amor à terra como dado essencial de uma poesia de claridade sedutora, de verdade cristalina, o amor à terra como paisagem.

Reproduz parte da produção de Setúbal:

“Tudo me entrista e punge nestas terras!
Os mesmos cafezais, as mesmas serras
E a mesma casa antiga da fazenda
Que outrora viu, quando éramos meninos
Nossos amores, nossos desatinos
Toda essa história já desfeita em lenda!
Era dezembro… Florescia o milho
Verde e glorioso como o nosso idílio…
Que lindas roças! Que estação aquela!
Toda a velha fazenda parecia
Com sua larga e rústica alegria
Mais cheia de aves, mais ruidosa e bela”!

Amoroso Lima saúda a chegada do “jovem poeta” e admira o caráter do sentimento da poesia, elaborada no momento em que a representação se substitui à sensação, para provar que a poesia não é mero sentimento, no estado puro, mas elaborado.

Ao rever a obra em 1947, Tristão anota: “Como são frágeis os vaticínios! Nunca mais ouvi falar desse poeta! Terá falecido? Terá silenciado? Terá sido tragado pelo cotidiano? Como tudo é melancólico e irônico!.

Paulo Setúbal continuou a escrever e enveredou-se por romances históricos. Integrou a Academia Paulista de Letras. Mas é verdade que poderia ser lembrado por sua poesia e por sua obra intelectual.

A vida é breve e mais curta ainda a memória dos pósteros, que só se preocupam com aquilo que mais lhes interessa de imediato e não têm tempo para o cultivo dos mortos ou para passear pela memória.


JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed. – RT-Thomson

JOSÉ RENATO NALINI

Do site jj.com.br

sexta-feira, 2 de março de 2018

Paulo Setúbal como patrono

Americana SP - Rua Paulo Setúbal, Vila Santa Inês.
Atibaia SP - Rua Paulo Setúbal, bairro Jardim Cerejeiras.
Campinas SP - Rua Paulo Setúbal, Botafogo.
Cerquilho SP - Rua Paulo Setúbal, Recanto do Sol.
Chopinzinho PR - Ginásio Paulo Setúbal (o primeiro colégio do município).
Curitiba PR - Rua Paulo Setúbal, bairro Hauer / Boqueirão.
Fortaleza CE - Rua Paulo Setúbal, Bairro Messejana.
Ijuí RS, Rua Paulo Setúbal, Bairro Luiz Fogliato
Jundiaí SP - Rua Paulo Setúbal.
Lajes SC - Biblioteca Pública Municipal Paulo Setúbal
Nova Friburgo RJ - Paulo Setúbal é patrono da cadeira 34 da Academia Friburguense de Letras.
Paulínia SP - Rua Paulo Setúbal, Bairro João Aranha.
Piracicaba SP - Rua Paulo Setúbal, Vila Independência.
Ponta Grossa PR - Rua Paulo Setúbal, bairro Uvaranas.
Porto Alegre RS - Rua Paulo Setúbal, Passo d'Areia.
Praia Grande SP - Rua Paulo Setúbal, Esmeralda.
Ribeirão Preto SP - Paulo Setúbal é patrono da cadeira 16 da Academia Ribeirão-Pretana de Letras.
Rio de Janeiro RJ - Praça Paulo Setúbal, Vila da Penha, Zona Norte.
Rolândia PR - Rua Paulo Setúbal.
São José do Rio Preto SP - Rua Paulo Setúbal, Vila Santa Cruz.
São José dos Campos SP - Rua Paulo Setúbal, Jardim São Dimas.
São José dos Campos SP - Vila Paulo Setúbal.
São José dos Campos SP - Paulo Setúbal é patrono da Cadeira 02 da Academia Joseense de Letras.
São Paulo SP - Biblioteca Paulo Setúbal, na Vila Formosa.
São Paulo SP - Rua Paulo Setúbal, Bairro Santana.
São Paulo SP - Paulo Setúbal é patrono da Cadeira 24 da Academia Cristã de Letras.
São Paulo SP - Edifício Paulo Setúbal, Rua Martiniano de Carvalho, bairro Bela Vista.
Sorocaba SP - Rua Paulo Setúbal, Vila Hortência.
Sorocaba SP - Paulo Setúbal é patrono da Cadeira 09 da Academia Sorocabana de Letras.
Tatuí SP - Praça Paulo Setúbal, com busto do escritor.
Tatuí SP - Museu Histórico Paulo Setúbal.
Tatuí SP - Semana de Paulo Setúbal.
Tatuí SP - Prêmio Literário Paulo Setúbal.
Ubatuba SP - Rua Paulo Setúbal, Remanso do Mar.
Valinhos SP - Rua Paulo Setúbal.
Vitória da Conquista BA - Escola Municipal Paulo Setúbal

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A vida cultural Atibaiana

Jornal da Cidade - Atibara SP Acesso 17/01/2017 10:19 horas

A propósito da inauguração do Centro Cultural “André Carneiro”, instalado pela prefeitura na praça da Matriz, prevista para 27/01/2018, apresentamos uma retrospectiva, rápida e superficial, das manifestações culturais promovidas através dos tempos. 

As atividades ocorreram nas escolas públicas e privadas, nas igrejas, nas associações civis e nos estúdios particulares.

Poesia, prosa e teatro. Atibaia recebeu a visita dos consagrados escritores Francisco Silveira Bueno, Amadeu Amaral, Paulo Setúbal, Mário de Andrade, além do artista plástico Benedito Calixto. Marcaram a presença deixando escritos, pinturas e ditos alusivos à beleza, religiosidade e cultura popular.

A imprensa anotou a atuação de Aprígio de Toledo, que incentivos debates literários no Gabinete de Leitura. Preparou atores e montou peças no Teatro do Largo do Mercado. Orador de verve, culto e eloquente, representou diversas associações do município.

Porém, até hoje, não mereceu dos órgãos públicos se lhe recolhesse e publicasse os textos esparsos à disposição nas colunas dos jornais e nos arquivos históricos.

Em meados do século passado a Associação Amigos de Atibaia montou uma biblioteca para doação ao município. Os edis vetaram. Dulce Carneiro, articulista do jornal de A Gazeta, de grande circulação na capital paulista, publicou matéria alusiva. Concluiu que se Atibaia é o “paraíso quase possível na terra” (Amadeu Amaral), o quase é por conta e risco dos vereadores.

Manifestações teatrais. Surgiu o grupo teatral Atibaia Viva, coordenado pelo ator e diretor Osvaldo Barreto Filho; O Corpo Municipal de Teatro; Grupo de Teatro Aletheia; Escola de Atores Residência Antaud, com direção geral de Wellington Duran; Cia. Maschera, bonecos de mamulengo, do Leonardo Garcia e Giorgia Goldani; Grupo Arcênicos Atibaia, dirigido por Durval Mantovaninni; ATA –Associação Teatral de Atibaia e Observatório Cultural Mazu, da atriz e diretora Sílvia Masulo, . 
Cinemas. Todas as pessoas, - não importava a condição social - corriam aos encantamentos mágicos das sessões de cinema. No começo as exibições aconteciam em praça pública através de empresas itinerantes. Depois, a partir de 1903, os empreendedores da província construíram e instalaram salas confortáveis e apropriadas, mediante nomes diversos: Cine Pavilhão, Recreio Cinema , Nordisk Cinema, Cine Central, Cinema Atibaiense, Cine Theatro República, Trianon Cinema e Cine Paratodos, Cine Itá, Cina Paraiso, Cine Atibaia. As casas eras inauguradas às pressas. Não demorava muito fecharem as portas. Muitas reabriam depois de ampla reforma do prédio. Os equipamentos modernizavam-se e o público exigia melhorias e confortos, nem sempre viáveis economicamente.

Contou-me o Valdir Gaborim da existência de uma cinema no bairro do Tanque, instalado próximo à estação do trem da braantina. Era o Cine Carolina, ao que se sabe de propriedade de Carlos Del Nero.

A origem do nome “Cine Theatro República” é intrigante. Pertenceu ao major Juvenal Alvim. Desde logo, se imagina ocorresse em homenagem e profissão de fé no regime republicano. Muitos, entretanto, atribuem a homenagem à distribuidora de películas “Republic Pictures”, devido a águia americana de argamassa, pousada no frontispício do prédio. Entretanto, o cinema foi inaugurado em 1926 e a distribuidora foi constituída em 1935. 

Nos primeiros tempos os filmes eram mudos e projetados da sacada do Clube Recreativo Atibaiano contra as paredes da praça Claudino Alves. Era o “Cinema Paradiso” atibaiense, imortalizado pelo cineasta italiano Giuseppe Tornator, porém, sem qualquer censura religiosa. Nos raros filmes impróprios para menores de 18 anos o Juizado facilitava o ingresso, desde que o adolescente portasse constituição física espigada . 

Nas salas os filmes (mudos) eram projetados por trás das telas, que, por isso, eram permanentemente molhadas para manter a transparência. Nos longos intervalos as famílias abriam as sacolas e comiam lanches com ares de piquenique. Os vendedores de pipoca, amendoim, pirulito, balas e doces circulavam pela plateia oferecendo guloseimas expostas numa cesta grande, atada numa tira apoiada no pescoço. Havia música ambiente ao vivo, executada por instrumentistas emprestados das bandas de música. No saguão de espera as peças musicais eram ligeiras. Na sala de espetáculo quase sempre se apresentavam obras clássicas. 

Logo chegou o cinema falado. Os aparelhos de som, quase sempre de má qualidade, esganiçavam a voz dos artistas. Entretanto, conseguia-se distinguir perfeitamente a voz aveludada das famosas divas (musas) do cinema. O ardido sotaque texano do Gordo (ator norte-americano Oliver Hardy) contrastava com o refino vocal do Magro (ator inglês Stan Laurel). Ria-se muito com as gagues.

Os filmes em cartaz eram comentados nos alpendres das residências para melhor entendimento da trama. Os vizinhos se achegavam. Os diálogos cinematográficos eram em língua estrangeira e poucos espectadores acompanhavam e entendiam as legendas em português. As dublagens não existiam. Todavia, as colônias de origem europeias, principalmente a italiana, esbaldavam-se com as produções patrícias.

Ninguém se conformava com os personagens em situação de miséria, desempregado, que ostentavam uma casa bem mobiliada, dotada de eletrodomésticos, TVs e automóvel na garagem. Nem o mais rico atibaiense jamais sonhara com tal luxo! O fato denunciava o desnível de renda e riqueza entre os países desenvolvidos e pobres.

As piadas grassavam soltas nas rodas de amigos . Nos filmes de caubói dizia-se que os matutos portavam revólver no cinema caso os bandidos apontassem na direção da plateia. Legítima defesa putativa, explicam os juristas.

A política rondava os cinemas. Os grupos antagônicos mantinham casas exibidoras próprias. O Cine Trianon, dos irmãos Titarelli, era frequentado pelos filiados ao Partido Democrático, depois Partido Constitucionalista, em oposição à política do Major Alvim. Estes integravam o Partido Liberal, depois Partido Republicano Paulista.

A tecnologia evoluiu. A vida cultural se deteriorou. Espera-se que a o Centro de Cultura “André Carneiro” e o Cine Itá Cultural, espaços públicos, possam retomar os espetáculos de boa qualidade perdidos há muito tempo nas profundezas do desinteresse governamental,











Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br
Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.
Contato: gilbertosant@terra.com.br

domingo, 15 de outubro de 2017

Sucessão de Paulo Setúbal na ABL teve consulta popular

José Mario Pereira: Consulta popular em eleição na ABL

A volta de concursos como os promovidos pela revista O Malho animariam positivamente a nossa vida literária

Por Augusto Nunes, em Veja

Vez por outra, quando surge uma vaga na Academia Brasileira de Letras, os jornais se apressam em anunciar os possíveis candidatos, os colunistas tratam de evidenciar a simpatia e a articulação a favor de um ou outro postulante, mas a nenhum diretor de jornal ou revista de circulação nacional ocorre consultar a opinião pública a respeito do tema. Falo aqui de um largo exercício de democracia participativa, da realização de uma consulta, com regras estabelecidas de votação, comissão apuradora, e tudo o mais que comporta uma eleição séria, com garantia de credibilidade respaldada por uma rigorosa auditoria. Tendo a crer que muitos acadêmicos, se consultados sobre esse assunto, responderiam que a ideia não faz sentido, considerando que somente aos membros da Casa de Machado de Assis cabe opinar e decidir sobre a escolha de um novo imortal.

Acabo de desencavar, porém, os documentos de uma saudável manifestação que vai na contramão desse tradicional comportamento. Ou seja, pelo menos uma vez já se fez consulta pública sobre a questão, patrocinada por respeitável órgão de imprensa, no sentido de sondar o sentimento e a vontade popular a respeito de quem merecia ser incorporado ao prestigioso cenáculo das letras nacionais. A ideia foi posta em prática há 80 anos, logo após o falecimento do escritor e advogado Paulo Setúbal, a 4 de maio de 1937, quando a cadeira de nº 31 foi declarada vaga. Então a revista semanal O Malho, que circulou de 1902 a 1954, e cuja redação funcionava na Travessa do Ouvidor, nº 34, no Centro do Rio, tratou de anunciar, em 22 de maio, que faria uma consulta junto aos leitores de todo o país com o objetivo de identificar quem deveria suceder, na ABL, ao morto ilustre. Uma semana depois publicavam as “Bases” do concurso:
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1. A votação terá a duração justa de cem dias, a começar de 20 de maio e terminando a 25 de agosto vindouro. Semanalmente O Malho divulgará as apurações parciais e o resultado final, com proclamação do nome vitorioso na edição do dia 9 de setembro, data em que se realiza, precisamente, na Academia Brasileira de Letras a eleição para preenchimento da vaga de Paulo Setúbal.

2. Cada leitor poderá remeter o número de votos que desejar. Só não é permitido justificar o voto, ou assiná-lo.

3. As apurações serão feitas semanalmente em nossa redação, podendo ser acompanhadas pelos interessados. A apuração final terá lugar no dia 31 de agosto.

4. O intelectual que receber o maior número de votos será homenageado pelo O Malho de forma condigna, e de modo a se fazer ressaltar a significação da sua vitória.

5. Podem ser votados todos os intelectuais vivos do Brasil, exceção feita, naturalmente, dos que já fazem parte da Academia Brasileira de Letras.

A iniciativa alcançou de imediato ampla aceitação. Já em 19 de junho, João Paraguassu, mobilizado pelo tema, escrevia no Correio da Manhã a crônica “A cadeira 41…”, que pela objetividade, e hoje difícil localização, merece transcrição integral:

A Academia Brasileira está voltando a ser objeto de intensas cogitações no nosso microcosmo intelectual. Fala-se, é certo, ainda muito mal dela, mas já se fala algum bem e com mais simpatia. O Malho tem contribuído para isso com os seus concursos. O do naufrágio [sic] dos poetas foi um dos mais interessantes, e dele se salvaram vários nomes que muita gente supunha no rol do esquecimento.

O outro foi o da questão da entrada da mulher no cenáculo. E dessa vez de novo os leitores daquele semanário fizeram obra sensata apontando as merecedoras de um lugar no Olimpo, e forçaram os moradores da casa de Machado de Assis a opinar favoravelmente, em maioria, o que valeu por uma interpretação do texto estatutário fora das quatro paredes do Petit Trianon.

Agora, outro movimento de O Malho agita o mundo dos letrados e focaliza a Academia. É um verdadeiro plebiscito. Quem deverá preencher a vaga de Paulo Setúbal?… As respostas vão surgindo. As preferências se manifestam. Em torno da memória do autor dos nossos melhores romances históricos, do reconstituidor das cenas da conquista do ouro e da caça ao índio, se alvoroçam os partidários dos capazes de receber-lhe o legado ilustre.

O fato deve ser apreciado, porém, pelas suas consequências. De entre os muitos sufragados, um sairá triunfante. Coincidirá a láurea popular com as inclinações acadêmicas?… Se isso acontecesse, seria uma sorte grande para a Academia, porque ela poderia proclamar a sua concordância absoluta com os brasileiros que leem…

Mas não entremos no campo dos vaticínios. Fiquemos na praça. E admitamos que o povo eleja um acadêmico para a “cadeira 41”, aquela em que costumam sentar-se os que nunca se apresentam, e acreditam nas promessas de votos que lhes fazem quase todos, mais ou menos nestes termos:

̶ Se você se apresentar, conte com o meu voto…

Conversa, apenas.

Na primeira apuração parcial Martins Fontes recebeu 11 votos, Plínio Salgado, 9, e Viriato Corrêa 3. A sexta se deu em 1º de julho e trazia o contista Cristovam de Camargo, do Pen Clube, liderando a prova com 151 votos. Na décima segunda o poeta paulista Cassiano Ricardo ficou em primeiro lugar com 998 votos, contra 880 dados a Plínio Salgado, e 398 a Catulo da Paixão Cearense. Na ocasião outros 61 profissionais das letras foram lembrados, incluindo escritoras como Carolina Nabuco e Henriqueta Lisboa (ambas com 18 votos, e isso quando ainda não era permitida às mulheres a glória acadêmica), e futuros membros da ABL como José Américo de Almeida (114), Viriato Correa (77), Oswaldo Orico (28), Gilberto Amado (11) e Pontes de Miranda (10). Nessa apuração sete foram as personalidades que contabilizaram o menor número de votos (4), entre as quais destaco, pelo exotismo dos nomes, e por serem hoje totalmente desconhecidos, Ilnah Secundino, Leal de Souza e Mahatma Patiala (!), pseudônimo de Ariosto Palombo, mais conhecido como João de Minas (que com este nome teve 6 votos na apuração final, enquanto Patiala chegou aos 16).

A décima terceira apuração parcial deu-se em 9 de agosto, quando Cassiano obteve 1.317 votos, Plínio 1.229, e Catulo, 484. Curiosamente Ilnah, Leal e Patiala continuaram no páreo com os mesmos quatro votos obtidos anteriormente. O anônimo redator da revista aproveita a ocasião para informar: “Publicamos hoje a última cédula para votação, e ainda achamos de bom aviso repetir que só serão apurados, no final do certame, os votos que estiverem em nosso poder até o dia 25 do corrente às 18 horas”.

O número de 26 de agosto de O Malho, que presta contas da décima quarta apuração, traz uma surpresa: Plínio Salgado tomara a dianteira, com 1.635 votos, contra os 1.570 de Cassiano e os 497 de Catulo, que continuava firme no terceiro lugar. O resultado final, no entanto, só seria conhecido em 31 de agosto, referendado por laudo assinado pela Comissão Verificadora, “composta dos brilhantes jornalistas Herbert Moses, presidente da ABI, M. Paulo Filho, diretor do Correio da Manhã, Roberto Marinho, diretor de O Globo [ele viria a ser eleito para a ABL em 22 de julho de 1993], e Orlando Dantas, diretor do Diário de Notícias”.

Mas quem, afinal, foi o ungido na ampla consulta popular, com vistas à ocupação da vaga acadêmica, nessa tentativa de um importante veículo de comunicação influenciar a escolha do próximo integrante da ABL? Pasmem: a láurea coube a Plínio Salgado, com espantosos 3.450 votos, mais de duas vezes o total recebido na votação anterior; e isso provavelmente se deu porque os integralistas, na reta final, despejaram o maior número possível de votos na urna do seu condottiero. A revista imediatamente estampou uma imensa foto do personagem, que aparece vestido com a farda do Integralismo, tendo num dos braços a faixa com o sigma, símbolo do movimento. Em comentário não assinado, louvando os talentos do vitorioso, O Malho afirma:

Em 1916 [Plínio Salgado] publicou seu primeiro livro, o romance O estrangeiro, que foi muito discutido e recebeu elogios dos mais notáveis críticos do país.

Essa vitória nas letras foi o ponto de partida para uma grande atividade intelectual, através a qual [sic] se revelou um dos mais firmes manejadores da pena. Jornalista, escritor de ficção, pregador doutrinário, a um tempo, sob qualquer dessas formas se tem revelado homem de cultura, capaz de enfrentar as polêmicas mais sérias como de defender pontos de vista e teorias, com brilho de forma e recursos de inteligência.

Chefiando hoje um grande partido político, goza no país de inegável popularidade e prestígio, e seus livros são publicados em edições sucessivas que se esgotam com rapidez.

O segundo lugar, com 1.927 votos, coube a Cassiano, figura de destaque na estrutura intelectual do Estado Novo. O terceiro posto, devido a 856 eleitores, permaneceu com Catulo. É interessante atentar para o desempenho de futuros acadêmicos na computação final: José Américo de Almeida (190 votos), Oswaldo Orico (114), Viriato Corrêa (91), Josué Montello, que não aparecia anteriormente (16), Gilberto Amado (11), Pontes de Miranda (10), Menotti Del Picchia (3) e Manuel Bandeira (1). É preciso também acentuar, na lista decisiva, a presença de escritores que nunca entraram para a ABL, seja porque não conseguiram se eleger, como se deu com Bastos Tigre (360) e com o poeta Jorge de Lima (13), seja pelo fato de jamais terem se candidatado. Entre os mais relevantes desse último contingente, nas letras e na política, merecem destaque: Henriqueta Lisboa (49), Carolina Nabuco (27), Rosalina Coelho Lisboa (12), Gilka Machado (12), Graciliano Ramos (10), Afrânio de Melo Franco (3), Luiz da Câmara Cascudo (2), Francisco Campos (1) e Gilberto Freyre (1).

A surpresa que se seguiu à manifestação pública de apreço às qualidades intelectuais de Plínio Salgado foi sua decisão de não concorrer à sucessão de Paulo Setúbal. O que terá pautado esse gesto? O sentimento de que uma disputa para a ABL pode ser mais difícil e cheia de surpresas do que uma eleição para o Senado ou a Câmara dos Deputados? A interrogação se torna ainda mais pertinente quando se toma conhecimento dos fatos que se seguiram: Cassiano Ricardo, o autor de Martim Cererê, foi eleito acadêmico no quarto e último escrutínio, com 18 votos, em 9 de setembro de 1937, tendo por concorrentes Viriato Corrêa (3), Bastos Tigre (4), Jorge de Lima (5) e Basílio de Magalhães (3), o único que não aparece em nenhuma das votações promovidas por O Malho. A revista informa que Sílvio Júlio, que recebera apenas um voto, também concorreu, mas retirou sua inscrição antes do pleito.

No número de 16 de setembro, O Malho se congratula com seus leitores e com a ABL pela inclusão de Cassiano aos seus quadros, e acentua:

Não pomos dúvida alguma de que muito tenham influenciado sobre os membros da Academia as ponderações que aqui temos expendido, muito embora o nome do eleito e o seu valor literário não sejam daqueles que, para se imporem, necessitem de campanhas como a que realizamos e que vem agora se cobrir de êxito.

Dissemos em nossa edição passada que qualquer dos candidatos inscritos estava à altura de ser eleito e por isso mesmo a Academia talvez acabasse por recusá-los a todos para preferir um medalhão político [grifo nosso]. Felizmente, porém, nosso prognóstico não se realizou e a cadeira que Paulo Setúbal ocupou, por tão pouco tempo mas tão brilhantemente, vai receber agora uma das legítimas expressões da inteligência e da poesia patrícias.

O Malho está vitorioso, e a grande massa de seus leitores se pode orgulhar de ter feito com que a Academia Brasileira de Letras retomasse, pelo menos por esta vez, o único caminho que poderá levá-la a reabilitar-se com o público brasileiro, se continua a ser trilhado [grifo nosso].

Afora a saudação ao novo imortal, paulista de São José dos Campos, o público da revista foi brindado com a foto do homenageado. Já a edição de 7 de outubro transcreve a carta de agradecimento que Cassiano enviou de São Paulo, datada de 22 de setembro, ao “meu caro redator”, na qual agradece a atenção a ele dispensada, e por fim ressalta ter sido nas páginas de O Malho que, há 20 anos, estreara na literatura.

Bem fariam os nossos diretores de redação, sempre que a ocasião se apresentasse, se cuidassem de reeditar a iniciativa de Antônio A. de Souza e Silva, diretor de O Malho, aperfeiçoando o mais possível as técnicas de aferição quanto às potencialidades eleitorais dos escritores dispostos a lutar por uma vaga na Casa de Machado de Assis. Levando-se em conta que toda Academia tem algo de clube em que os sócios se reúnem na expectativa de um agradável convívio, e que o eleito não pode ser nunca mais excluído, seria recomendável — inclusive para a orientação dos votantes desavisados — que os jornais e revistas publicassem perfis dos candidatos, não só tratando de suas qualidades literárias e obra editada, mas também com dados sobre o temperamento e a personalidade de cada um. Esse procedimento ajudaria, e muito, a prevenir a entrada na ABL de escritor ou notável de difícil trato, capaz de incomodar, seja física, verbalmente, ou por escrito, seus futuros companheiros no Petit Trianon. Creio que a volta de concursos como os promovidos pela revista O Malho animariam positivamente a nossa vida literária, mobilizando leitores e intelectuais, tornando ainda mais glamourosos a Academia Brasileira de Letras e os seus imortais.