domingo, 14 de agosto de 2022

Obra "Fatos e Fitas" traz crônicas sobre o Largo de São Francisco

Lançamento

Autoria é do advogado criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira.

Do site Migalhas

12/08/2022 -  Acaba de sair do prelo a obra "Fatos e Fitas - crônicas sobre o Largo de São Francisco" (Editora Migalhas), do advogado criminalista Antonio Cláudio Mariz de Oliveira. O trabalho é dedicado a seu pai, o desembargador e processualista Waldemar Mariz de Oliveira Júnior, "eterno acadêmico da São Francisco".

As crônicas, segundo o próprio autor, são desprovidas de rigor histórico e cronológico, mas foram "escritas com o espírito e com a alma desejosos de reverenciar a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco."

Em entrevista exclusiva ao Migalhas, o criminalista falou da importância do Direito em sua vida e contou detalhes do famoso episódio em que foi barrado na Faculdade pela letra ilegível.

Imagem: Divulgação | Antonio Cláudio Mariz de Oliveira

Por conta da sua letra, considerada ilegível, o senhor foi barrado na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Conte-nos um pouco mais sobre isso.

Nasci com letra ruim, vivi com ela pior e hoje não tenho mais esperança de que melhore. Foi por causa dessa letra que não consegui passar no vestibular do Largo São Francisco. Soube que estava estampado um carimbo de ilegível na redação de português porque o professor Fued Temer, um querido amigo de meu pai e meu, tomou a iniciativa de ver a minha prova, assim que soube da minha reprovação. Examinou-a e verificou essa anotação. Prestei vestibular também na Católica onde os examinadores foram mais complacentes ou eu melhorei milagrosamente minha letra. O teste da minha grafia foi apenas em uma prova, a de português, porque os demais exames foram orais. Ainda bem. Soube anos depois que pela mesma razão o ministro Sidnei Beneti fora também reprovado num primeiro exame que prestou no Largo São Francisco. Senti-me em ótima companhia. Serviu-me de consolo.

Quais são os laços que ligam o senhor ao Largo de São Francisco?

São laços que surgiram no meu berço de nascimento, quando vim ao mundo, porque meu pai estudava no terceiro ano da Faculdade quando nasci. Como morava com meus avós na rua do Riachuelo, atrás da Faculdade, por várias vezes ele levou-me ao centro acadêmico Onze de Agosto, ali localizado. Sempre ouvi histórias dos tempos de estudante contadas por meu pai. Acompanhei encontros que ele tinha com seus colegas de turma e em razão desses contatos, dessas histórias, impregnei-me do espírito acadêmico das Arcadas. Não obstante sempre ter desejado cursar a Faculdade, a Católica (PUC), onde me formei, representou um marco em minha vida, pois lá tive intensa vida acadêmica, fiz política, exerci a boemia, constituí sólidas amizades, fui brindado com professores excepcionais e conheci minha mulher, Angela, que foi minha colega de turma.

Narre um FATO e uma FITA do Largo de São Francisco.

Eu escrevi um livro com a denominação de "Fatos e Fitas", editado por Migalhas, narrando, de um lado fatos extraídos da realidade e de outro fitas frutos da imaginação, da ficção, do que não aconteceu, mas poderia ter acontecido. Esses fatos e fitas do livro pararam no final do século 19. Vou narrar fatos, e não fitas, que ocorreram durante a ditadura de Getúlio Vargas, quando os estudantes se empenharam com grande ardor na luta para o retorno da democracia. E o fato que cito diz respeito à prisão de meu pai no dia em que a Faculdade foi invadida, em 1943, quando ele e um colega foram presos descendo a rua do Riachuelo. Cada um deles foi agredido por cacetetes jogados dentro de um carro. Talvez como consequência da pancada, ou por nervosismo, o colega de meu pai começou a rir, dar gargalhadas, e papai entrou em pânico, pois no banco da frente havia um policial empunhando uma metralhadora, apontada para ambos. Embora papai mandasse o colega ficar quieto, os risos aumentavam de intensidade, o que gerava um maior pânico. Mercê da sorte e da proteção divina o policial passou a rir junto e o episódio, felizmente, não trouxe outras consequências a não ser uma detenção por alguns dias.

O Direito sempre esteve presente em sua vida. Como o senhor enxerga a evolução da advocacia no país?

Ao invés de utilizar a expressão evolução eu utilizaria mudanças operadas na advocacia. A primeira delas diz respeito ao avanço da tecnologia, tornando o advogado seu refém. Eu confesso que se não tivesse os meus companheiros de escritório provavelmente não estaria advogando hoje. O meu tempo é o do cartório, do juiz atendendo os advogados, oficial de justiça indo fazer citações, o manuseio dos processos, as conversas de corredores... Hoje esses aspectos tão presentes na minha vida sofreram sensível diminuição. A principal diferença por mim sentida e com certeza por advogados das gerações anteriores é a ausência do contato pessoal com os colegas e com demais personagens da família jurídica. Na advocacia criminal a mudança mais notável no meu entender foi operada com a criminalização dos delitos do colarinho branco. A classe economicamente privilegiada passou a se sentar nos bancos dos réus. Isso proporcionou a uma minoria de advogados honorários de maior vulto. Esse fato afastou tais advogados das raízes da advocacia criminal. A raiz é a cadeia. Os advogados que se dedicaram a defesa das classes mais abastadas, com as exceções que são devidas, deixaram de ter o que eu chamo de "cheiro de cadeia". Na minha opinião, a grande missão do advogado criminal é se tornar a vez e a voz daquele que não as tem. E quem não tem voz ou vez, e nunca as teve, são os que estão na cadeia, em sua maioria oriundos das classes menos favorecidas. São homens e mulheres que jamais tiveram consciência de sua cidadania, nunca souberam que são detentores de direitos e de garantias. E, é exatamente o advogado quando há uma acusação criminal que lhes põe em contacto com esses direitos, até então desconhecidos por si. Portanto, a advocacia criminal encontra a sua razão primordial nos cárceres, onde é cumprida essa missão e empresta à profissão nobreza e dignidade. Reitero uma confissão. Foi na cadeia que conheci a alma brasileira e foi na cadeia que eu me humanizei.

Liste seus 5 livros favoritos.

  1. Todos os livros de Francisco Marins
  2. Alma Cabocla, de Paulo Setúbal
  3. Os meninos da rua Paulo, de Ferenc Molnár
  4. Coração, de Edmondo de Amicis
  5. A montanha Mágica, de Thomas Mann

Para finalizar, uma frase que é o seu lema.

Ser a voz e a vez dos que não têm vez nem voz, como advogado; ser solidário, como cidadão; ouvir a intuição, como norte de vida.

Você pode ver este artigo em sua publicação original através do link abaixo;

segunda-feira, 30 de maio de 2022

O Quinto dos Infernos ganha nova reprise na TV

Para escrever O Quinto dos Infernos, Carlos Lombardi se baseou em livros que abordam de maneira inovadora o período do Primeiro Reinado, como “As Maluquices do Imperador”, de Paulo Setúbal.

By Redação O Canal

Minissérie O Quinto dos Infernos no canal Viva (Créditos: Divulgação/TV Globo)

27/05/2022 - A família real portuguesa está de volta ao canal Viva no dia 30 de maio, a partir das 19h30, em O Quinto dos Infernos.

Escrita por Carlos Lombardi e dirigida por Wolf Maya, a trama retrata de uma maneira bem-humorada os bastidores políticos do país da Independência do Brasil.

Com Marcos Pasquim no papel de Dom Pedro I, Betty Lago como Carlota Joaquina e André Mattos como Dom João VI, O Quinto dos Infernos começa em 1785 com a chegada de Carlota Joaquina em Portugal e passa por diversos momentos históricos como a chegada da família real no país, o início do Império no Brasil e a guerra civil em Portugal entre os irmãos Pedro e Miguel (Caco Ciocler).

Exibida originalmente em 2002 na TV Globo, a minissérie teve locações em Paraty, no Rio de Janeiro, e em Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul. A cenografia foi inspirada em obras do inglês Thomas Ender e dos franceses Debret e Rugendas, com uma extensa pesquisa nos arquivos do Museu Histórico Nacional.

Para escrever O Quinto dos Infernos, Carlos Lombardi se baseou em livros que abordam de maneira inovadora o período do Primeiro Reinado, como “O Chalaça”, de José Roberto Torero; “A Imperatriz no Fim do Mundo”, de Ivani Calado; e “As Maluquices do Imperador”, de Paulo Setúbal.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

APENAS UM POUCO FRACO DO PULMÃO


2 de setembro de 2021

Paulo Setúbal (Divulgação)


Com amável dedicatória, recebi do admirável escritor Fernando Jorge a segunda edição, revista e muito ampliada, de seu livro “Vida, Obra e Época de Paulo Setúbal”, publicado pela Geração Editorial (S. Paulo – 2008). Como as demais biografias do Autor, é um trabalho minucioso e que esgota todas as fontes possíveis, respondendo a todas as indagações que possam ser feitas. Assim também acontece quando ele trata, neste volume, da estadia de Paulo Setúbal em Lages nos anos de 1919 e 1920, realizando um levantamento completo das atividades do escritor paulista naquela cidade serrana, valendo-se inclusive de informações de Nereu Corrêa em livro que ele enaltece pela seriedade da pesquisa.

O SINISTRO DIGNÓSTICO

Quando se constatou que ele “estava um pouco fraco do pulmão”, expressão usada para mascarar a tuberculose ou peste branca, o jovem escritor e jornalista foi aconselhado pelos médicos a procurar local de altitude mais elevada, clima saudável e ar puro. Os recursos de então eram ainda precários no combate à terrível enfermidade. Diante disso, ele se fixou por uns tempos em Campos do Jordão e, considerando-se curado, retornou à Paulicéia. Formou-se em Direito e entregou-se à advocacia, ao jornalismo e aos escritos, sempre com sucesso. Nesse período foi acometido da gripe espanhola que então grassava, salvando-se por milagre, o que levou os médicos a vetarem sua permanência na capital paulista. Seu irmão mais velho, João Batista Setúbal, era casado com a filha de um fazendeiro lageano e residia na chamada Princesa dos Campos. Dirigiu ao irmão um convite para passar uma temporada na cidade, cujo clima se recomendava ao tratamento dos fracos de pulmão. Paulo Setúbal logo aceitou, movido inclusive pelo desejo de aventura, e rumou para Lages.

ADOTADO PELA CIDADE

A cidade o encantou desde a chegada e sua simpatia pessoal, seu jeito extrovertido e conversador conquistaram de pronto a simpatia dos moradores. A comunidade o adotou sem restrições.

Era o único bacharel formado da cidade e seus anúncios logo apareceram nos jornais, oferecendo os serviços profissionais e registrando ser formado pela Academia de Direito de São Paulo. Em pouco tempo ficou cheio de serviço, foi contratado para alguns inventários e tratou deles com sucesso. Inventários, naquele meio onde imperava o latifúndio, constituíam os mais cobiçados e bem remunerados serviços advocatícios. “Ganhei fama e passei a trabalhar sem tréguas” – escreveu ele.

O DINHEIRO SE ESVAÍA

Mas o dinheiro ganho desaparecia como água pelo vão dos dedos. É que ele aprendera a jogar e se entregava “à paixão torturante das cartas” – segundo suas próprias palavras. Esquecendo-se da doença, passava noites em claro, em locais fechados, aspirando o ar viciado e a fumaça dos cigarros. Numa só jogada apostava todo o ganho de uma longa e trabalhosa causa. Não satisfeito, prosseguia nas noitadas pelos cabarés e boates da periferia, sempre acompanhado de bizarras figuras de tropeiros e negociantes de gado. Mas, ao que parece, vivia feliz, exercitando “a ânsia de viver, de mandar às favas a lembrança das horas negras” – para repetir o biógrafo.

E que mais fazia ele na cidade campeira que se estendia entre coxilhas ondulantes? Mantinha uma existência ativa, cheia, movimentada. Amante da natureza, percorria a cavalo as cercanias da cidade, enlevado com a luta dos peões, a lida braba dos rodeios, as correrias de homens de bombachas e chapéus de abas largas. Em redor do fogo, ouvia suas histórias e sugava mates amargos. Observava com intenso prazer “o mais admirável bosque de pinheiros que me foi dado contemplar” ao sol que se punha por trás da última coxilha.

NOS JORNAIS E NO CARNAVAL

Enquanto isso, os dois jornais da cidade – “O Planalto” e “O Lageano” – publicavam seus trabalhos, em prosa e verso, além de notas sobre suas atividades. Artigos, crônicas, contos, poemas românticos e humorísticos, comentários sobre temas históricos e do momento e até uma espécie de manifesto em favor de Rui Barbosa, candidato a presidente da República.

Para espairecer, “participou de um bródio, servido entre chalaças e ditos espirituosos, ao som de uma orquestra de flautas, violinos e cavaquinhos.” Aderiu de pronto ao animado carnaval da cidade, em 1919, e compareceu ao baile à fantasia, no Clube 1º. de Julho. À sua entrada, registrou um jornal, “voltam-se cabeças curiosas; fisionomias iluminam-se num sorriso acolhedor e travessos corações tremem… tremem num presságio de assalto irresistível.” O Dr. Paulo Setúbal era um sucesso na terra lageana.

NO JÚRI E OUTRAS TRIBUNAS

Atua em rumoroso julgamento pelo júri (ao que tudo indica o único), profere discursos e conferências de repercussão que são analisados e comentados pelos jornais. Produz e publica poemas e mais poemas. E advoga com intensidade.

Não obstante, continua a jogar e a cometer abusos contra a saúde frágil. Adoece, tem que guardar a cama, e se recupera, ansioso por voltar à vida ativa. Nas tardes de folga, comparece à roda que se forma na farmácia “do culto e verboso Otavinho Silveira. Ali encontrava vários amigos: o Dr. Nereu de Oliveira Ramos, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo; o Dr. Cândido de Oliveira Ramos, seu parente, formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e que no desempenho de sua profissão havia prestado serviços ao exército sérvio, durante a Primeira Grande Guerra; o Dr. Walmor Argemiro Ribeiro Branco, primeiro lageano a formar-se em medicina; o jornalista Manuel Tiago de Castro, redator de “O Lageano.” Ali a boa prosa corria, como em geral nas boticas das pequenas cidades, enquanto o chimarrão fechava a roda. Relatou o referido farmacêutico que o governador Hercílio Luz havia convidado Setúbal para o cargo de Promotor Público da comarca, mas ele declinou. Essas informações foram colhidas pelo Autor do livro na obra de Nereu Corrêa.

BATE A SAUDADE

Estava em Lages há mais de um ano e as saudades começaram a bater. Apesar do sucesso pessoal e profissional, resolveu retornar à Paulicéia. A viagem até Florianópolis, que durou três dias, foi conturbada e cheia de incidentes, inclusive com o carro pernoitando, encalhado, num dos frequentes atoladores da estrada. Dorme num casebre humilde, acolhido por um casal muito pobre, e fica indignado com a sovinice de um fazendeiro, seu companheiro de viagem. Em São Paulo, retoma as atividades que o conduzirão à glória literária e à morte precoce, vitimado pela implacável peste branca.

O ESTÁGIO NÃO INFLUENCIOU 

Lages, com a reconhecida hospitalidade campeira, lhe abriu todas as portas e sua permanência ficou marcada para sempre na memória da cidade. Segundo Nereu Corrêa, no entanto, a experiência não se refletiu na obra do escritor e nenhuma influência exerceu sobre ela. Em seu livro “Confiteor”, Paulo recorda com saudade sua epopeia na Princesa dos Campos como um momento mágico de sua vida.


Promotor de Justiça (aposentado), advogado e escritor. Tem 59 livros publicados em variados gêneros literários. É detentor de vários prêmios e pertence a diversas entidades culturais. Assina colunas no Jornal Página 3, na revista Blumenau em Cadernos e no site Coojornal - Revista Rio Total.

sábado, 31 de outubro de 2020

ARTIGO | Dia Nacional do Livro e o despertar do coração

29 de outubro de 2020


Por Anne Valerry* 

O despertar de um coração é algo emocionante. Ele bate fora do normal, arde, tremula as pernas e entorpece os sentidos. Não sei o que acendeu fagulhas dentro do meu e fez me apaixonar pelo universo dos livros. Eu só me lembro que a história ficou martelando em mim por dias.

Era a Marquesa de Santos, de Paulo Setúbal, poeta da minha querida Tatuí. Foi o primeiro livro que eu li entrando na adolescência. Domitila de Castro Canto e Melo e o nosso Imperador D. Pedro I se encontraram a poucas semanas do grito do Ipiranga e foram amantes por sete anos.

Confesso que eu me vi impactada em plena juventude e que ele me deixou fora do ar e em altos devaneios. Peguei carona nas nuvens, como se os meus sonhos fossem soprados com gentileza pelos bons ventos de uma história romântica e chocante.

Esse livro teve o poder mágico de me transformar e descortinar o mundo entre um homem e uma mulher. Depois disso, me senti estimulada a ler outros livros e caí de amores pelo o que eles me trouxeram e me contaram.

Foi, então, que decidi explorar o universo da leitura e desbravei as incógnitas internas com descobertas valiosas, e transformei-o em uma fonte inesgotável de conhecimento e emoções. Com um livro, a solidão se despede e apresenta vidas fascinantes, sem dias entediantes.

Por isso, eu leio, leio, leio… e vivo em constante mutação e muito bem acompanhada pelo que há de mais rico em nossa cultura: os livros. Mais que isso, construo as minhas próprias histórias, com as obras que escrevo como a de Victoire e Maurice, em a Dama das Lavandas, mais que um romance de época transmite lições importantes sobre empoderamento feminino, preconceito, machismo, luta de classes e ainda atenta as mulheres em relação às escolhas para o futuro.

E tenho orgulho, neste Dia Nacional do Livro, em despertar outros corações e emocionar mais e mais pessoas a amarem os livros e buscarem inspirações página por página.

*Anne Valerry é formada em Letras, é professora de português e espanhol e foi por muito tempo bailarina e coreógrafa. Seu primeiro romance publicado foi Uma linda história de amor. Recentemente lançou a obra A Dama das Lavandas. Ela gosta de retratar paixões tórridas, mas também bem-humoradas e repletas de ensinamentos.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Thales: “humano, demasiado humano”

por: Cecílio Elias Netto, em A Província

fonte: "A Tribuna Piracicabana", caderno especial na edição de 15/setembro/2020

15/09/2020 às 18:54

[artigo publicado, originalmente, no caderno especial produzido pelo jornal “A Tribuna Piracicabana”, em comemoração aos 130 anos de nascimento do escritor piracicabano Thales Castanho de Andrade – considerado o pioneiro da literatura infanto-juvenil brasileira]

Thales Castanho de Andrade. (imagem: arquivo IHGP)

Não me ocorrera antes, mas, agora, parece-me apreender – talvez, mais lucidamente – a agridoçura do livro “Saudade”, de Thales de Andrade. Pois é saudade o que estou sentindo. Uma estranha e esquisita saudade. Dele, saudade dele. De Thales Castanho de Andrade.

Na verdade, não consigo defini-la nem a mim mesmo. Ela, a saudade, veio devagar, de mansinho. Percebi-a dois dias após o Evaldo Vicente convidar-me a participar desta homenagem a Thales. Pelos seus 130 anos de existência. Pois, embora em outra dimensão, Thales de Andrade, o professor Thales, o escritor Thales – o Thales que me impulsionou à vida literária – esse Thales existe. Cada vez mais, como se prisioneiro ou refém da História.

Não ouso dizer esteja sendo o passado a renascer das cinzas. É algo mais concreto, mais real. Nestas horas, sinto ter entendido – e espero assim o seja – Thales de Andrade não ser, para mim, tão somente essa notável personalidade histórica, mas uma força muito além disso: ele é parte fundante de minha vida profissional. Como não o seria, se, nessa já longa estrada, Thales de Andrade esteve entre os que mais segurança me deram, quase que lançando-me abruptamente nessa misteriosa, fascinante, imprevisível aventura?

Foi aos meus 17 anos. (Ah! “Volver a los 17” – como já o cantara a incomparável Mercedes Sosa.) Numa certa tarde, João Chiarini – sempre ele, inesquecível João – foi à nossa casa à minha procura. Acompanhava-se de um intelectual de Tatuí, de nome Paulo, coordenador, então, da Semana Paulo Setúbal naquela cidade. Eles convidavam o jovem estudante –então, recém-saído do curso colegial – para ser um dos palestrantes das solenidades daquele ano. E, em ar desafiador, disseram-me: “Você irá proferir a palestra na mesma noite da fala de Thales de Andrade”. Falar em público, ao lado de Thales? Quis fugir.

Naquele mesmo momento, recebemos a visita de meu ex-professor de literatura e de línguas, o então padre Eduardo Affonso. A casa de meus pais era como um quintal sem muros, portas abertas aos amigos, vizinhos e, até mesmo, a estranhos. Morávamos no coração de Piracicaba e era quase um hábito das pessoas “ir tomar um cafezinho na casa de Dona Amélia e Seo Tuffi”. Meu professor entusiasmou-se e bradou: “Ele (eu) irá, sim. E tenho o tema para ele desenvolver: “As reticências de Paulo Setúbal!” Reticências… Uma quase criança tentar decifrar o que Paulo Setúbal deixara oculto em alma e coração, resumido a misteriosas reticências?

Jamais saberei se foi coragem, audácia, atrevimento ou irresponsabilidade juvenil. O fato é que preparei a palestra e lá me vi levado a Tatuí. No mesmo carro que transportava o Mestre Thales de Andrade. Não falei palavra durante a breve viagem. Tive medo, como se, por fim, desperto para a minha imprudência. O fato é que uma força inexplicável me moveu ao fazer o discurso, o público incendiou-se, os aplausos prolongaram-se e me vi aturdido, apalermado. Era como se o vulcão represado dentro de mim tivesse explodido, esvaziando-se e esvaziando-me.

Foi, então, que aconteceu a nobreza, a grandeza, a realeza de espírito daquele já idoso senhor, do escritor consagrado, do pioneiro da literatura infantil brasileira, de nome Thales Castanho de Andrade. Pois, ao se anunciar o seu discurso, ele se levantou pachorrenta e serenamente como era de seu feitio, cumprimentou o público e apenas informou: “Depois do que ouvimos desse moço, eu nada mais tenho a falar.” Olhou-me não sei se com ternura se cumplicidade e sentou-se. O público ovacionou-o. Todos compreenderam que, naquele momento, era a alma paterna, humana, generosa, compassiva de Thales de Andrade abrindo-se para agasalhar, em proteção, um jovenzinho iniciante.

Era o Thales revelando-se como realmente sempre foi: “humano, demasiado humano”. Como não lhe render graças?

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

5 obras sobre as vítimas de dom Pedro I

Maria Leopoldina, Dom Pedro I e Domitila de Castro protagonizaram um dos mais conturbados triângulos amorosos da História

VICTÓRIA GEARINI
Publicado no site Aventuras na História, em 07/01/2020

Respectivamente: Maria Leopoldina, Dom Pedro I e Domitila de Castro - Creative Commons


Crédito: Leya

A imperatriz D. Leopoldina ficou conhecida por conta de seu triângulo amoroso com Domitila de Castro e D. Pedro I. No entanto, esta obra apresenta a imperatriz por outro ângulo. O escritor Paulo Rezzutti reforça a figura complexa e carismática de Maria Leopoldina, a partir de um caderno de imagens inéditas e documentos originais.


Crédito: Geração Editorial

Em sua obra, o historiador Paulo Rezzutti apresenta a biografia completa de Domitila de Castro (1797 -1867), mais conhecida como a Marquesa de Santos. Considerada uma das mulheres mais conhecidas e influentes da América Latina, a marquesa teve um caso secreto com Dom Pedro I, que, segundo o escritor Paulo Setúbal, escandalizou a sociedade da época com o seu amor pelo primeiro imperador.


Crédito: Wikimedia Commons

A obra de Marsilio Cassotti revela fatos ocultos de cartas de Leopoldina, por meio de um tom intimista e ágil. Com rigor histórico, este romance aborda educação sentimental e política, em um contexto imperial brasileiro.


Crédito: Rocco Digital 

A renomada historiadora Mary del Priore reinventa a forma de contar a história do conturbado triângulo amoroso. Por meio de um conteúdo inédito, a escritora revela cartas de Dom Pedro I à sua amante e à sua esposa, além de escritos de Leopoldina ao marido e à irmã. Em paralelo com a história do Brasil e da cidade do Rio de Janeiro, a obra expõe momento intrigantes e de erotismo da família imperial.


Crédito: Leya

Para contar a história secreta de Dom Pedro I e a Marquesa de Santos, Paulo Rezzutti reuniu cartas trocadas pelos amantes, entre 1823 a 1829. O escritor revela em sua obra fatos curiosos, como os apelidos intrigantes do casal. Rezzutti resgatou os escritos em arquivos, encontrados nos Estados Unidos, e revela, ainda, aspectos do cotidiano do Primeiro Reinado.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

O Brasil nunca leu tanto (Raimundo Carrero)

Raimundo Carrero (*)


No princípio era apenas um livrinho chamado Português, quem sabe um dicionário e, com alguma sorte, uma gramática. Entre uma regra gramatical e outra um poema, quase sempre de Olavo Bilac, mais alguma coisa - conto ou crônica -, Raimundo Correia, talvez um parnasiano, e, é possível, um tanto de Machado de Assis da primeira fase, nem sempre o melhor. Estudava-se gramática, a literatura passava ao largo. Chamavam isso de leitura.

Mesmo assim, quem quisesse ler mais procurasse em alguma biblioteca interdita, livraria nem pensar. Jornal dependia muito da família, revista só com a autorização da família. Em certo canto escondido da sala, embaixo de sete chaves, um talvez Tesouro da Juventude, cheio de textos conservadores e tradicionalistas, destinado aos homens. Para as mulheres, exclusivamente, um texto de M. Delly, descoberta de norte-americanos para meninas que não desejassem nem sonhassem.

Imaginava-se que este este era o pseudônimo de uma religiosa ou educadora nem um pouco disposta e se apresentar, corria o risco de linchamento. Descobriu-se depois que era um casal de franceses disposto a vencer o puritanismo norte-americano. Os livros precisavam sempre de autorização da Igreja, do imprimatur de um cônego ou de um monsenhor. Literatura era coisa de depravados. Por isso mesmo as mulheres demoraram muito a se alfabetizar. Precisavam de autorização.

De minha parte tive muita sorte. Até os 12 anos pude ler, abertamente, os livros da biblioteca do meu irmão Francisco, que encontrei na loja do meu pai Raimundo Carreiro de Barros, em Salgueiro. Depois encontrei a biblioteca do meu irmão Geraldo, em casa de quem morei dois anos, quando saí do internato do Colégio Salesiano. E tem mais: nunca ninguém me proibiu de ler qualquer coisa. Li o que quis, sempre. Indiscriminadamente.

Muitas vezes saí correndo do colégio até a Rua da Imperatriz para comprar livros de Jorge Amado, Paulo Setúbal ou Graciliano Ramos. A nossa Rua da Imperatriz tinha três livrarias, além dos sebos, verdadeira instituição recifense, instalados no chão. Livros, livros e livros espalhados às pencas no centro da cidade, nas décadas de 60 , 70 e 80. A cidade começava a ler com vigor até hoje. Agora todos os colégios adotam livros de várias tendências e cores, desde os chamados infanto-juvenis até os mais sofisticados.

Os autores percorrem o país debatendo, analisando e questionando os estudante, com grandes resultados. Até o momento não existe censura de qualquer espécies e todos estão preparados para qualquer reflexão. E a literatura cresce com os prêmios internacionais. Até autores vivem da venda de livros.

* Jornalista e membro da Academia Pernambucana de Letras