domingo, 20 de julho de 2014

Discurso de Posse na Academia Brasileira de Letras

DISCURSO DO SR. PAULO SETÚBAL


SENHOR Presidente,
Senhores Acadêmicos,

Para mim, que sempre vivi e escrevi no meu Estado natal, longe do fanfarreio gritante das gazetas e das rodas literárias da metrópole, não podia suceder paga maior do que a paga que me concedestes: ser galardoado com a mercê, alta e insigne, de membro da Academia Brasileira de Letras. Esta noite, portanto, senhores Acadêmicos, em que me abris festivamente o pórtico da Casa de Machado de Assis, o pórtico de vossa casa, isto é, da casa em que mora a mais nobre e a mais alevantada intelectualidade do país, esta noite, quero acentuá-lo prazerosamente aqui – é a grande noite fulgurante da minha desvaidosa carreira de letras. Não sei se foi, apertadamente, na vossa justiça, ou, complacentemente, na vossa generosidade, que vós decidistes dar-ma. Sei apenas que, assim o decidindo, vós me coroastes com as vossas mãos consagradoras; e eu vos agradeço, senhores Acadêmicos, eu vos agradeço aqui, no limiar desta festa, essa coroa de louros tão envaidecedora, com que premiastes o escritor da província.

Mas deixai também, meus Senhores, nesta linda hora risonha, em que as emoções mais íntimas se atropelam dentro de mim, deixai que, mal acabe de vos agradecer, eu me ausente precipitado destas galas. Sim, deixai que meu coração voe para longe daqui, fuja para a minha estremecida cidade de São Paulo, e lá, comovido e respeitoso, penetre por um momento, muito de manso, numa casa modesta de bairro sem luxo. Nessa casa, a estas horas, nesta mesma noite, está uma velha toda branca, oitenta anos, corcovada, com o seu rosário de contas já gastas, a rezar diante da Virgem pelo filho acadêmico. Pelo filho que ela, a viúva corajosa, ramo desajudado, mas altaneiro, de família opulenta, criou, educou, fez homem – Deus sabe com que sacrifícios e com que ingentes heroísmos obscuros! Deixai pois, senhores Acadêmicos, que o meu coração voe para a casa modesta do bairro sem luxo, entre o quarto do oratório, ajoelhe-se diante da velha branquinha, beije-lhe as mãos, e, na brilhante noite engalanada deste triunfo, diga-lhe por entre lágrimas:

– Minha mãe, Deus lhe pague!

* * *

Senhores Acadêmicos, que ano trágico para as letras, e para o Brasil, o ano de 1934! Uma após outra, com esmagadora crueza, desabaram catástrofes rudíssimas sobre esta Casa. Miguel Couto, Augusto de Lima, Medeiros e Albuquerque, Coelho Neto, Gregório Fonseca, Humberto de Campos, João Ribeiro... Parecia que os deuses se compraziam, invejosos, em desfechar coriscos sobre titãs. Debalde, a cada raio que estralava, volvíamos desconsoladamente os olhos para o alto, e, na nossa mágoa, bradávamos contra aquela desatada sanha. Por que tão bruto furor na alma dos deuses? Tantaene animis celestibus irae? Por quê? Mas bradávamos em vão contra o fado inexorável. As clareiras, com a queda dos robles, iam-se abrindo largas, brutais, naqueles cumes onde, exatamente, era mais robusta, mais seivosa, mais atrevida, a selva do pensamento brasileiro. Entre os que caíram, tronco soberbo, com as grossas raízes mergulhadas fundamente no chão da terra nativa, com a larga fronde a fulgir no ouro bubuiante do sol, foi João Ribeiro aquele jequitibá magnífico, entrançado de lianas balouçantes, enfeitado de parasitas alegres, todo chilreado de pássaros, que uma faísca sacrílega feriu de golpe na majestade de sua força. E rolou por terra o gigante.

Gigante que, durante cinqüenta anos, bem cheios e bem vividos, outra cousa não fez senão o dedicar-se às letras, à arte, à cultura, ao alevantamento intelectual do Brasil. Espírito curiosamente polimorfo, surpreendentemente policulto, desses que sabem marear, desempenados e ágeis, por fundas e várias correntezas do saber humano, João Ribeiro, ao desaparecer, deixou nesta Casa, que ele tanto amou e tanto ilustrou, um vazio que se não preencherá tão cedo. “Il est des hommes à qui l’on succède, mais que personne reemplace”, disse-o Ducis, numa frase velha e célebre, ao substituir Voltaire na Academia de França. Jamais, senhores Acadêmicos, o conceito do poeta teve enquadramento mais ajustado do que neste momento. Sim, há homens a que se sucedem, mas que se não substituem. João Ribeiro não foi – ai de mim! – substituído. Nem seria fácil, confessemo-lo todos, no atual momento nacional, topar com um substituto que se emparelhasse no mérito ao mérito do sergipano ilustre. A personalidade dele, pelo seu porte e pela sua complexidade, é dessas que aparecem de quando em vez no correr das gerações. Contemplemo-la de perto.

* * *

Historiador, filólogo, folclorista, crítico literário, jornalista, escritor fantasioso, poeta, tudo João Ribeiro o foi. E, o que é o mais, excelente em tudo, deixou sobre tudo obras excelentes. Quantos volumes brotaram da sua mão infatigável? Algumas dezenas... E nessas dezenas de volumes, apesar da diversidade das matérias, ressalta logo, através do escritor racialmente brasileiro que ele foi, a obra alta de nacionalismo que ele realizou. Sim, obra alta de nacionalismo. Basta considerar (nem será preciso mais para que essa obra se delineie bem nítida) os estudos que João Ribeiro difundiu com o mais vivo entranhamento: o estudo da história, o estudo da língua, o estudo do folclore, isto é, – as três raízes que se afincam mais profundas no substratum duma nacionalidade. E há ainda a se notar, Senhores, que essa obra de nacionalismo se tornou concreta e eficiente – frisemo-lo bem frisado aqui! – graças à vocação do homem, vocação irresistível, que é a sua qualidade primacial, razão de ser das suas canseiras, escopo dos seus esforços, única finalidade dos seus labores: o professor. Pois João Ribeiro foi professor a vida inteira. Foi professor em tudo. Foi professor escrevendo livros didáticos. Foi professor escrevendo para jornais. Foi professor escrevendo páginas puramente fantasiosas. Foi professor escrevendo crítica literária. Foi professor quando, no colégio D. Pedro II, durante longos e suados anos, plasmou entre suas mãos, como argamassa viva, essas inúmeras turmas de adolescentes que hoje, em idade madura, estão aí pela vida fora a construir o Brasil.

E nesta noite, senhores Acadêmicos, em que, doridos, fazemos todos o elogio do escritor operosíssimo, já que não seria possível num só discurso analisar-lhe minudentemente a vasta obra cultural, ponhamos ao menos em destaque, embora desenfeitadamente, as vigas mestras que arcabouçam tão vultosa personalidade.

* * *

Comecemos pelo historiador. Dos vários compêndios sobre História, tanto antiga como moderna, que João Ribeiro deixou, aquele em que o professor pôs o seu melhor carinho, aquele que custou ao estudioso oito anos de honrados trabalhos, é um pequeno livro, escasso na aparência, mas notável como realização: História do Brasil, curso superior. Viu-se logo, ao aparecer a obra, que não se tratava de história ao jeito dos vetustos tratadistas coloniais, Gândavo, Gabriel Soares, Cardim, que escreveram aqueles ingênuos (aliás, tão saborosos) Tratados da Gente e da Terra do Brasil; nem de história seca, desenrolada ano por ano, à moda de crônicas, ou de recontos genealógicos, tal como a de Rocha Pita, a de Jaboatão, a de Taques; nem, também, de história pomposa, rebrilhante, desenvolvida à maneira das velhas histórias européias, como a de Southey e a de Varnhagen. Teve-se a sensação, diante da obra, de que, nas letras históricas brasileiras, havia surgido algo nuevo. Ou melhor: havia surgido um escritor que levara a efeito, sob uma orientação nova, uma história nova.

Era bem verdade. E essa orientação havia sido aquela mesma que, numa página bem conhecida, enviada de Munique, delineara a pena arguta e profunda de von Martius. A pena daquele doutíssimo von Martius, que, arrancado em tão boa hora dos seus eminentes estudos, transcorridos no sossego civilizado dos Alpes bávaros, viera aqui, no primitivismo rústico do Brasil adolescente, estudar o homem, a terra, a língua, a fauna, a flora, e, para lustre de seu nome, lançar no mundo científico, além de outras, aquela obra imensa, obra típica de sábio alemão – “Beiträge zur Etnographie und Sprachenkunde Amerika’s zumal Brasiliens” – que é hoje, como toda a gente o sabe, o livro criador da etnografia brasílica. Pois foi este mesmo von Martius quem, lá da encantadora e romântica Baviera, tracejou para os brasileiros, naquela sua curiosa página, uma lição de vulto, e, para a época, verdadeiramente admirável: “Como se deve escrever a História do Brasil”. O que vem dito aí, é, nos nossos dias, verdade comesinha. Ao tempo em que apareceu, contudo, representava uma revolução. E que é que pregava tal revolução? Recordemo-la, por um momento, nos seus pontos capitais.

Para von Martius, meus Senhores, o historiador brasileiro que ambicionasse ser “um historiador profundo e humano”, deveria escrever uma obra em que, antes de tudo encarasse os elementos raciais da nacionalidade: o branco, o índio, o escravo. Que encarasse, com a contribuição de cada um desses três sangues na formação do povo e na própria evolução do país, a influência preponderante, tão decisiva, que, para o desenvolvimento e para o progresso da nação nova, tiveram os colonizadores cristãos, e, dentre esses colonizadores, notadamente – o jesuíta. Que encarasse também, não a história das províncias em separado, embora sejam tais obras de preço inestimável, mas, numa vista panorâmica sobre todo o Brasil, aquelas “porções do país que, por analogia de sua natureza física, pertencem umas às outras”. Porções que se tornaram núcleos, donde, como de células-madre, irradiou-se pela terra inculta o movimento civilizador. Esses núcleos, no dizer de Martius (e que grande verdade esta verdade do sábio bávaro!), haviam sido: Maranhão, Pernambuco, Bahia, São Paulo.

João Ribeiro aceitou a lição que viera de Munique. E realizou-a com mão de mestre. “[...] a História do Brasil, diz ele, começou a ser escrita entre nós com a pompa e o grande estilo da História européia: perdeu-se um pouco de vista o Brasil interno [...]” No entanto afirma-o com incisão, “o Brasil, o que ele é, nas suas feições próprias e na sua fisionomia própria, o Brasil deriva do colono, do jesuíta, do mameluco, da ação, dos índios e dos escravos negros. Dei-lhes por isso uma grande parte, e uma importância que não é costume haver por eles, neste meu livro”. Assim, meus Senhores, nem só considerou João Ribeiro a História do Brasil nos seus elementos raciais e nos seus elementos colonizadores, como também a considerou através daqueles núcleos formadores de que falava von Martius, núcleos conglobadores de várias regiões, isto é, na expressão do próprio João Ribeiro – “através das quatro células fundamentais, que, por multiplicação, formaram todo o tecido do Brasil antigo”. E a obra, assim bussolada, saiu-lhe escorreita da pena flexível. Na execução dela, afim de melhormente suavizar-lhe o rude da matéria, ei-lo, o escritor e o artista, ei-lo a evocar, em quadros cheios de vida e cor, cenas típicas, paisagens, feitos capitais da História brasílica. Vede o debuxo que nos deixou de uma bandeira pelo sertão! Com que justeza e com que realidade, João Ribeiro, o primeiro entre os historiadores pátrios, fixou, em livro didático, o que fosse a investida pelos mataréus adentro dessa (como dizia numa frase feliz) dessa “cidade que viaja com os seus senhores e os seus governados”, cidade onde não faltavam contendas e rixas; crueldades e envenenamentos, cidade a que nada detinha – “nem os desfiladeiros, nem os precipícios, nem a sede, nem a fome, nem a guerra, nem as ciladas da terra desconhecida”.

Sob tal plano, e com primores de elaboração, o historiador realizou o seu pequeno mas básico volume. Muita tinta, senhores Acadêmicos, ainda há de correr sobre a História do Brasil. Varnhagen e Rocha Pombo, ao escreverem as suas, que foram, como obras globais, (embora diferentes no mérito), os maiores marcos miliários cravados nas nossas letras históricas, coordenaram, com o material inédito que joeiraram em arquivos, aqueles materiais que obreiros anteriores também haviam coligido. Mas de Varnhagen para Rocha Pombo, de Rocha Pombo para os nossos dias, já se andou caminho largo. Apareceram outros e numerosos obreiros; apareceram outros e numerosos materiais. Eis porque acredito que em breve há de surgir no Brasil (e surgirá fatalmente!) o historiador novo, filho desta nossa idade nova, que fará a História Nova. Esse, ao erguer a mole, certamente há de sentir que, entre as pedras basilares do edifício, lá está, pequenina mas indestrutível, essa proba e remarcada obra que, como inesperado facho, apontou um rumo novo, bem brasileiro, às letras históricas do seu tempo: História do Brasil, curso superior, de João Ribeiro.

* * *

Com o historiador, meus Senhores, há a se considerar em João Ribeiro...
Senhores Acadêmicos, façamos um parênteses. Temos pronunciado várias vezes nesta noite o nome de João Ribeiro. E, muitas outras vezes, ainda haveremos de pronunciá-lo. Não será demais portanto que, nesta altura, digamos uma palavra sobre tal nome. Ou antes, e melhor, não será demais que o amorável João Ribeiro, com a sua graça brincalhona, nos dê estas deliciosas razões do seu apelido:
Chamo-me (pouca gente o sabe) João Batista Ribeiro de Andrada Fernandes, nome tamanho para tão curto indivíduo. Ainda moço, cortei o Andrada, pois que o Ribeiro de Andrada, por auspicioso que fosse, podia parecer um apelido fraudulento. Cortei também o Fernandes, para evitar o João Fernandes, que se opõe a César nos provérbios. E fiquei João Ribeiro; e talvez fosse melhor ficar João Batista.

Zanguei-me com o Batista, porque um padre, professor de latim, costumava apodar-me:
– João Batista, abaixe a crista!
E não só a abaixei, cortei-a de vez. Sou, pois, um mutilado, graças a essas anatomias remotas. Podia ser pior.

Esclarecido assim, tão chocarreiramente, o apelido do singular mutilado, continuemos a dizer que, com o historiador, há a se considerar em João Ribeiro, muito particularmente, o sabedor da língua. As gramáticas que elaborou, e, com elas, esses variadíssimos livros, Fabordão, Estudos Filológicos, Dicionário Gramatical, Morfologia e Colocação de Pronomes, Curiosidades Verbais, A Língua Nacional... falam, na sua multiplicidade, alto e largo, da notabilíssima cultura filológica do glorioso acadêmico. Sim, meus Senhores: notabilíssima cultura filológica. Nem há sombra de demasia no meu adjetivo louvador. Quereis acaso ter a amostra do que foi essa cultura? Lede (não vos será preciso mais), lede apenas as Frases Feitas. Nessa obra, que é um fascinante estudo da fraseologia brasileira, exsurgem, de mãos dadas, o glotólogo, o gramático, o historiador, o folclorista, o que vale dizer – exsurgem aí os muitos eruditos que, fundidos, formavam aquele erudito só que era João Ribeiro. Vereis então com que vastidão e solidez de conhecimentos, e, ao mesmo tempo, com que rebrilho, o investigador rebusca e explica, através da acidentada história da língua e através de rigorosas filiações etimológicas, vasta cópia desses modismos, dessas expressões pitorescas, desses anexins, numa palavra, dessas frases feitas, tão chistosas, que correm mundo de boca em boca.

Não há fugir, Senhores: poucos, pouquíssimos, o igualaram no conhecimento do vernáculo. E que cultor devotadíssimo foi ele das letras antigas! E que ledor caloroso dos clássicos portugueses! Ele tinha paixão pela língua, enlevo ardente pelo meigo idioma, ternura de namorado por essa “bárbara flor do Lácio, inculta e bela”, a que deu o melhor dos seus anos e a mais longa força do seu engenho. “A juventude não ama os velhos e grandes autores, diz ele, pois a boa estimação dos clássicos, o carinho e o amor com que devemos cerca-los, é fruto da madureza do espírito, quando cessa a avidez das idéias novas, ou apenas diferentes, soberbas, bizarras e extravagantes.”

Esse amor pela beleza vernácula, no entanto, não impedia a João Ribeiro de verificar que a cantante e nobre língua portuguesa, ao transplantar-se para a América, ao aclimar-se na terra do pau-de-tinta, temperando-se e caldeando-se ao influxo de elementos os mais díspares, já se amalgamara aqui diferente da da terra-máter, formando uma língua, sob muitos aspectos, nova, língua brasileira, ou melhor, língua nacional, como ele, falando a brasileiros, a cognominara. “Sem dúvida alguma, a nossa língua é a portuguesa; mas enriquecida e adaptada ao novo e longínquo ambiente, a que veio respirar. Não só enriquecida a vemos, mas ainda reconstruída, pela renovação de antigos elementos preservados desde a vida colonial.” Certo, não queria ele que a língua nacional fosse essa algaravia plebéia e chula que aí anda, linguajar esmolambado de caboclos, aquele famoso “amplo surrão”, de que nos fala tão grandiosamente Rui – “amplo surrão onde cabem à larga, desde que o inventaram, todas as escórias da preguiça, da ignorância, ou do mau gosto”. Certo, certíssimo, não queria João Ribeiro uma língua nacional desse quilate. “Não é a defesa (esclarece) nem a apologia intencional de solecismos, e barbaridades e defeitos indesculpáveis. É muito mais erguido e alevantado o meu propósito. Trata-se da independência do nosso pensamento e da sua imediata expressão.

” Pois, acentuava – “falar diferentemente não é falar errado. A fisionomia dos filhos não é a aberração teratológica da fisionomia paterna. Na linguagem, como na natureza, não há igualdades absolutas; não há, pois, expressões diferentes que não correspondam também a idéias ou a sentimentos diferentes. Trocar um vocábulo, uma inflexão nossa, por outra de Coimbra, é alterar o valor de ambos a preço de uniformidades artificiosas e enganadoras”. Depreende-se bem daí, pelo incisivo e claro de tais idéias, que João Ribeiro, tal como outrora José de Alencar, pugnava por uma língua (digamos lá) abrasileirada, isto é, por uma língua portuguesa, é verdade, mas língua já diferençada da de Portugal, língua ordenada, não há dúvida, mas língua com as suas expressões novas, com a sua prosódia nova, com o sentido novo que os vocábulos, ao atravessarem os mares, adquiriram na terra nova. E considerava ele tão agudo o embate que, na hora atual, dizia já ir travado entre a língua portuguesa e a língua brasileira, que exclamava em fervoroso tom: “Estamos assim caminhando, como galés, por uma diagonal, entre duas forças que nos solicitam para rumos diversos: o americanismo, espontâneo, incoercível, natural e o portuguesismo, afetado e artificioso. Em tempo, o povo, que é o maior de todos os clássicos (no dizer de um deles) dirá a última palavra. E os gramáticos, de mãos vazias e para o ar, só terão aquela réplica memorável: Kamerade!”

Darão os acontecimentos razão ao filólogo eminente? Só o tempo o dirá...
Contudo, Senhores, a verdade bem verdadeira é que João Ribeiro, apesar da sua teoria sobre a língua nacional mostrou-se sempre (acentuemo-lo mais uma vez) um apologista ardoroso da boa, e limpa, e castigada linguagem portuguesa. “São próprias da infância da língua – dizia ele nas Páginas de Estética, – (ou das eras de preocupação prática que são outra infância senil) as imperfeições, a grosseria, a frouxidão, o desleixo com que se exprimem e se vestem os pensamentos, como se acaso há exprimi-lo com tanta névoa ou nueza”. Ora, quem assim pensava, o professor que tal apregoava, tinha necessariamente de forjar, afim de por nas mãos dos discípulos que o escutavam, esse instrumento básico, insubstituível, com que se aprende a manejar o pensamento sem névoa e sem nueza: a gramática. Daí, como conseqüência, a sua Gramática Portuguesa.

* * *

O ensino da língua, ao tempo em que João Ribeiro apareceu na liça, vinha sofrendo o incoercível influxo renovador daqueles estudos histórico-comparativos, hoje tão vulgarizados, mas então moderníssimos, com que Bopp e Diez, Bréal e Whitney, haviam revolucionado o mundo dos lingüistas e dos glotólogos. Já Carlos Höffer, com um pequeno opúsculo, que fora como um toque de clarim, dera entre nós o sinal de alarme. E Pacheco Júnior, ao publicar a sua Gramática Histórica, rasgara, por entre a rotina conservadora dos velhos compêndios, uma trilha nova e fascinante aos estudos de filologia no Brasil. Foi então que se engolfou pelo caminho que se abrira, e se engolfou desabusadamente, toda uma falange de espíritos luzidos: João Ribeiro, Lameira de Andrade, Fausto Barreto, Alfredo Gomes, Hemetério dos Santos, Sílvio de Almeida, Said Ali, Maximino Maciel.

Entre esses obreiros, tantos e tão desempenados, avulta com destaque o nome de João Ribeiro. E avulta com um destaque absolutamente inconfundível. Pode-se afirmar sem vislumbre de exagero, que, se não foi o pioneiro, foi o guapo sergipano a hélice mais possante, a mais vigorosa, que, para a sua difusão, tiveram no Brasil os ensinamentos de gramática histórico-comparativa. E isto, Senhores, nem só porque os seus livros sobre filologia alcançaram vasta e imprevista repercussão, como também, e principalmente, porque a sua Gramática Portuguesa, talvez a mais excelente de quantas já se publicaram entre nós, avassalou de golpe o mundo pedagógico do seu tempo. Não se apresentava ela, estufadamente, como a “ciência dos princípios imutáveis e gerais da palavra pronunciada ou escrita”, mas, tão simplesmente, como a “coordenação e exposição das regras da linguagem”. E lá vai o gramático, livro afora, fugindo à tão verberada “terminologia gramatical abstrusa e cansativa”, de que impertinentemente se ressentem as obras da época, mas com a sua exposição límpida e fácil, a sua classificação clara e desempolada, a desenvolver deleitosamente a matéria, desde os princípios meüdos do som até as regras basilares da sintaxe, sem se esquecer de ensartar aqui e ali, com nenhuma canseira para o estudioso, antes com deleite e encantamento, uns resumos de teorias complicadas, cheias de sutilezas, tal como a lei de Grimm ou a classificação semântica de Pott.
Tornou-se dessarte a Gramática de João Ribeiro, com as suas dezenas de edições, com os seus milhares e milhares de exemplares, a obra, no gênero, mais espalhada de então. Todos nós, os que aqui estamos, aprendemos abundantemente com ela. E, com ela, sem dúvida alguma, hão de ainda aprender abundantemente os nossos filhos. Que glória mais fulgente haverá, Senhores, para um semeador de livros, do que a glória de ter realizado um livro assim? Não sei! Mas sei que compreendo e sinto aquele comovedor enternecimento com que João Ribeiro nos conta:

Um dos melhores instantes da minha vaidade sucedeu quando uma criança me perguntou:
– Pois então o Senhor é autor de minha gramática?
– Sou, minha filha, eu sou o autor da sua gramática...

Naquela pergunta, naquele ingênuo arregalar-de-olhos da criança, repassado de tão espontânea e tão quente admiração, ia, não há negar, um dos melhores louros do velho mestre.
Trabalhos históricos e pesquisas filológicas haveriam de forçosamente de conduzir a João Ribeiro...
Ainda, e outra vez, o nome de João Ribeiro! Não foi à toa que esse nome deu ao dono tantos incômodos! Não o sabeis? Aqui no Rio havia, além do Acadêmico, dois outros Joões Ribeiros: um, banqueiro; outro, refinador de açúcar. Por causa do refinador (o que foi bastante aborrecido!) teve o filólogo que se debater nas unhas do fisco. “[...] este bom refinador de açúcar, que infelizmente eu não conheço, é também meu tocaio, como dizem os gaúchos, ou meu xará, como dizem os brasileiros. Creio que por ele já paguei uma multa e imposto sobre a renda, porque eu não tenho renda alguma tributável.” E por causa do banqueiro (o que foi ainda mais aborrecido!) o nosso filólogo teve, sem mais nem menos... que morrer! É ele próprio quem narra o caso: “[...] há poucos meses um jornal de Lisboa, creio que o Diário de Notícias, noticiou a morte do banqueiro João Ribeiro e pespegou ao artigo um retrato meu, apanhado não sei onde. Fui assim morto em efígie como nos ‘autos’ do Santo Ofício, quando a vítima lograva escapar. O caso, como anacronismo, não é grave, porque ando perto do fim. Depois, o mesmo erro foi aqui cometido, no meu amado Brasil, pelas folhas do norte.

E não foi a primeira vez que morri.” É claro que, com a inesperada nova, principiaram a chover telegramas de pêsames à casa de João Ribeiro. “Eu podia responder, diz ele, como Mark Twain quando, em Viena, soube que corria na América a notícia da sua morte. O humorista passou aos amigos este telegrama: boatos respeito minha morte muito exagerados. Eu não tenho consolação tamanha: dou-me por agonizante, desde que vinguei os 73 neste vale de lágrimas.”

Perdoai, Senhores, pelo chistoso do que ouvistes, o inoportuno da digressão. Reatemos, porém, o fio seco desta parlenda. E continuemos a dizer que os trabalhos históricos e as pesquisas filológicas haveriam forçosamente de conduzir a João Ribeiro, como seqüência natural, ao estudo do nosso fabulário, das nossas cantigas, dos nossos mitos, das nossas usanças, das nossas tradições, numa palavra – ao estudo do nosso folclore. E conduziram-no, de fato. As investigações sobre disciplina tão sedutora, para a qual os etnógrafos se voltam hoje com o mais sôfrego interesse, ainda jaziam no Brasil, ao tempo de João Ribeiro, na sua primeira infância. É verdade que Sílvio Romero havia já, com os seus Estudos sobre a Poesia Popular do Brasil, os Cantos Populares do Brasil, os Contos Populares do Brasil, lançado os alicerces iniciais do folclore nacional. Sílvio Romero, contudo, assim como os seus seguidores (tão poucos!) quase que se não entregaram a outra faina senão a de buscar e acumular o material folclórico. Faina de vulto, é certo, custosa e preciosa, mas que significa apenas parte da tarefa. Carecia, além de buscar, interpretar esse material.

E esse trabalho de interpretação, trabalho melindroso, que demanda do exegeta, ao par de largueza de erudição, qualidades agudíssimas de penetração, esse trabalho João Ribeiro o desenvolveu no Brasil com uma bravura e um garbo que o engrandecem. E desenvolveu, nem só repelindo a corrente tão em voga, da interpretação astronômica, de que Max Müller fora o famigerado campeão, e de que, entre nós, Couto de Magalhães e Hartt se tornaram devotados aplicadores, como também, o que é mais, carreando para o estudo da matéria uma doutrina de rebrilho, então bastante nova, a da psicologia étnica, völkerspsychologie, que Wundt propagara com entusiasmos ardorosos. Assim, para João Ribeiro, existiria em todas as sociedades uma alma coletiva, alma do povo, que, com o atuar decisivamente sobre a alma de cada um, formaria como que o substratum profundo, racial, das agregações humanas. “Os rústicos, explana ele – os campônios, os elementos humanos de qualquer gregário, tribo ou sociedade, possuem em comum certas idéias e doutrinas elementares acerca das coisas. Selvagens, bárbaros ou civilizados, homens, enfim, possuem uma alma coletiva onde repousam as suas próprias superstições e crendices, as suas formas d’arte ou de ciência primárias, que lhes dão a intuição do mundo anterior, preliminar e precedente às criações pessoais, mais tardias, da ciência abstrata ou da arte culta. Nesse enciclopedismo inculto, formado de pensamentos elementares, de emoção e de inteligência, é que consiste a alma popular.

E essa psicologia coletiva ou étnica, alma do grupo, alma da raça, é o fundo comum e a camada primigênia que explica e define o caráter especial de cada povo, no seu tríplice aspecto psíquico, antropológico e histórico.” Estudar, portanto, o folclore, isto é: “estudar tradições, contos e superstições populares, é exatamente (concluía) – explorar esse antigo nível d’alma, já sobreexcedido pela civilização”. Sob tal luz, João Ribeiro impulsionou vivamente, com força marcada que foi do pensamento da sua geração, as investigações do folclore entre nós. O seu livro sobre a matéria aí está. Os seus ensaios aí estão. Proclamam eles, como testemunhos sólidos, o conhecimento enciclopédico que o douto Acadêmico possuía sobre a disciplina, o seu trato familiar com autores os mais remotos e os mais modernos, indianos e árabes, gregos e latinos, franceses e italianos, ingleses e alemães, a principiar da coletânea de Pantschatantra e do Bildpai, até os livros de João de Cápua e Lafontaine, passando pela comprida fieira, às vezes bem atemorizante, dos Esopos, dos Fedros, dos Fábios, dos Avianos...

Do valor da obra folclórica de João Ribeiro, dos sulcos que deixou, da orientação que a mesma imprimiu no Brasil a tais estudos, não o diga eu, que me falece a autoridade, mas sim um erudito de valor, Lindolfo Gomes, que é justamente apontado como um dos mais doutos folcloristas da geração:
“Folk-lore – livro a todos os títulos grandioso, considerado, e com toda a justiça, a obra clássica científica na etnografia nacional, obra imperecível, obra que consubstancia todos os ensinamentos relativos à matéria que trata.”
Fechemos com tamanho louvor está descosida página. Para que mais?

* * *

Eu deveria ainda, com o historiador, com o filólogo, com o folclorista, que formam, ao que se me afigura, as linhas mais vincadas da personalidade cultural de João Ribeiro, eu deveria ainda destacar aqui outras linhas, umas fortemente incisivas, outras menos ressaltantes, mas que, ao entretecerem-se, completam e harmonizam esse homem de atividade tão vária. Assim, meus Senhores, eu deveria destacar o poeta. E, no poeta, aquele grego sonoro dos museons, tão equilibrado e claro, que cantou a Heles, a Lídia, a Lúcia, a Fúlvia. Principalmente a Fúlvia:

Entras no banho, Fúlvia, e a linfa mansa
Onde teu pé mergulha, estaca e mira...

Tudo se espelha n’água sonorosa
Que de vaidades cálida borbulha
Ante o misto de mármore e de rosa!
E, com o grego, o lírico de finas graças, o galanteador daquela arisca vizinha fronteiriça (“pálida vizinha, toda jasmins e rosas”), a quem dizia:

Antes de entrares, inda vens lá fora,
Ouço-te o riso no jardim cantando,
Tal se fosses um pássaro, Senhora!

Ou ainda o parnasiano, colorido e opulento, que evocou o esplendor morto de Pompéia:

Repara bem... Escuta os címbalos hiantes,
Mais a cítara, e o plectro, e as trompas sonorosas,
E, das doces e imortais avenas soluçantes,
Os sons que andam no ar cheirando como rosas.

Eu deveria ainda destacar o humorista delicioso que ele foi. E o pintor que ele quis ser. E o professor pachorrento, de quem se contam as anedotas mais pitorescas, aquele bom vovô, adorado pelos alunos, que dava as suas aulas no Colégio D. Pedro II “[...] com a s meias caídas sobre as botinas de elástico, os cordões das ceroulas compridas, desatados, os bolsos cheios, arrebentando de livros, de jornais, de revistas, e, não raro, sentado sobre o próprio chapéu [...]” como, tão ao vivo, o apanhou nesse instantâneo a pena dum cronista ágil. Mas isso tudo, senhores Acadêmicos, é matéria que não cabe em discurso. Exige obra de mais fôlego. E essa obra, lâmpada votiva acesa amorosamente à memória de João Ribeiro, essa obra que, tenho a certeza, toca fundo o carinho e a gratidão desta Casa, vem-na realizando fulgidamente, com o coração e o espírito, um discípulo amado do mestre, escritor de pulso, que é, sem favor, uma das penas mais galhardas dos nossos dias: o Sr. Múcio Leão.

Mas não é possível, mesmo nos apertados limites dum discurso, não é possível, sob pena de falta grave, que, ao fazer o elogio deste espantoso operário da pena, eu deixe em silêncio uma faceta incisiva dessa tão fecunda e tão variada individualidade: o jornalista. Não o jornalista que ele zurzia, no seu Fabordão, o de que motejava, o de que dizia ser “o vaidoso das letras, o da vaidade efêmera das modas, dos dias, e da atualidade, para quem o amanhã é um martírio inútil e desprezível”. Não! Ele foi um jornalista que fez do jornal um complemento da sua cátedra, fonte de ensinamentos, veículo de que o professor se servia com sagacidade, não para colher a gloríola o momento, mas, bem ao contrário, para plantar as raízes do amanhã. Assim, durante dilatados anos, enchendo as gazetas do tempo com a mocidade, sempre verdejante, do seu espírito, com o humour, sempre lesto, dos seus ditos alegres, ensinava todas as manhãs, em dois dedos de prosa, alguma cousa útil ao seu público, e, com inadjetivável paciência, respondia as mais heterogêneas, descabeladas, infindáveis perguntas sobre a história, etnografia, colocação de pronomes, filologia – sei lá o que mais? – que lhe vinham de todos os quadrantes do país.

Foi no jornal, ainda, que João Ribeiro fez crítica literária. Crítica? Não sei bem se foi crítica. Pois ele não acreditava muito nessa matrona azeda, de óculos pretos e palmatória. Antes, nas Páginas de Estética, entremostrou, com zombeteira malícia, a quase inutilidade dela. “A crítica, queiram ou não queiram, é planta parasítica e inábil, que nasce sempre tarde, e, não raro, como esta, a desoras.” E nem só era planta parasítica e inábil, como também (acentuava-o filosoficamente) “[...] é escola de inimigos e ocasião de muitos desconsolos em matérias prudenciais e íntimas. Com ela se sacrificam os amigos; e, o que é pior até, se ganha o mentido amor dos desafetos e dos contrários”. Por isso fez João Ribeiro aquela crítica tão dele, sem puas, indulgente, que sempre recebia com blandiciosos estímulos, compreendendo e perdoando, qualquer esforço literário, qualquer, por mais desluzido que fosse. É bem certo que às vezes, em meio àquele distribuir de loas, um entusiasmo súbito brotava-lhe irrefreado do coração, o tom da voz aquecia-se-lhe, os adjetivos tombavam-lhe enfeitados, como que a pena lhe flamejava escandente na mão: o garimpeiro havia topado com uma pedra rara. Não vacileis, Senhores: obra, quando assim louvada, é obra-prima de verdade.

Mas não nos esqueçamos também de relembrar aqui, como nota marcante, que João Ribeiro, na sua eficiente atividade de polígrafo, se viu envolvido várias vezes em polêmicas ferozes. “Uma ou outra vez (anotou ele) e creio que contra a minha vontade, entrei em disputas gramaticais e filológicas; tenho dado e apanhado, mas felizmente tenho apenas recebido ferimentos leves que me não obrigaram ao doloroso galicismo de guardar o leito. Vou passando bem e inclino-me até à doutrina de que uma roda de pau, quando não quebra as costelas, contribui para uma reação benéfica e salutar.” Pensando assim, e com esse risonho destemor, o rijo sergipano, de toledana em punho, saiu freqüentemente a campo a disputar justas, encarniçadas refregas gramaticais, em que pelejou sanhudamente com cavaleiros de pulso rijo, senhores de caldeira e pendão, Pacheco Júnior, Sílvio de Almeida, Leite de Vasconcelos, e, sobretudo, com esse lidador áspero, todo vestido de braçais, e de coxotes, e de guantes de ferro, Carlos de Laet, desferidor de golpes perfidíssimos, o mais causticante e o mais iracundo dos combatentes literários do seu tempo. O recontro entre ambos foi de aluir céus e terra. Na afogueada fervedura da luta (a que não impeles os feitos mortais, ó celerada paixão da gramática!) João Ribeiro, acossado, deixou, mais de uma vez, tombar da pena enfuriada a palavra asnidade. Ao que Laet, sempre cru, revidava com esta flecha ervada: “...o sujeito só usa termos assim; vê asnos em toda a parte: dir-se-ia que mora em palácio de espelhos.” Mas o duelo tremendo cessou afinal. E, depostas as armas, vieram os anos amenizar o dolorido dos golpes. Os dois combatentes, que em verdade se admiravam, não se mantiveram pela vida afora, tal como a deusa séva de Virgílio – aeternum servans sub pectore vulnus. Não! Apaziguaram-se.
Reconciliaram-se. João Ribeiro, sobretudo, que era doce de coração, bem longe de guardar no peito aquela clássica ferida eterna, guardava gostosamente, como uma das recordações divertidas da sua vida, a longínqua recordação da peleja ruidosa. Assim é que, certo dia, ao buscar na sua biblioteca um livro que não encontrava, foi à procura do filho:

– Joaquim, que fim levou o Forrobodó?
E como o filho o fitasse com espanto:
– Forrobodó?
– Sim, Forrobodó... Era assim que o Laet, na briga, chamava o meu Fabordão... Que apelido delicioso!

* * *

Digamos agora, senhores Acadêmicos, como fecho a esta desarreada arenga, que João Ribeiro foi um escritor de apurada raça. Estilista recatado, sem demasias nem altissonâncias, exato e probo, o grande acadêmico, na arte de escrever, há de certamente ficar entre nós como um mestre.
Versou ele matérias de variegado matiz e variegado tom; umas especializadas, outras áridas, todas difíceis, mas, ao versá-las, debastou aqui o arrevesado da doutrina, abrandou-lhes acolá a terminologia pedantesca e, sobretudo, com discreta arte, enfeito-as a todas com louçainhas e garridices de linguagem, “para que (como o aconselha o insigníssimo Bernardes) em companhia do suave entrasse o útil”. Das suas obras, por isso mesmo, tal como das obras do próprio Bernardes, pode-se dizer como o frade licenciador “dão-se nelas as mãos, e se unem conformes, a clareza com que ensina e a erudição com que escreve”.

Eis a razão por que é sempre um gosto o ir, conduzido pela magia do escritor, através das tantíssimas obras que o professor deixou. E esse gosto cresce, torna-se encantamento, quando, de improviso, a gente penetra com ele, entre surpreso e deleitado, por esse livro florido e boêmio, fruto sumarento da mais deliciosa vadiagem de espírito: Floresta de Exemplos. Nesse livro de erudito, mas de erudito fantasioso, livro encantadoramente feito de apólogos os mais saborosos, cheios todos de veladas sutilezas urticantes, nesse livro está o sergipano inteiro e verdadeiro, com aquela sua malícia reticenciosa, aquela sua ironia sem acúleos, aquela sua risonha displicência de filósofo bonacheirão. Porque ele foi, em verdade, um filósofo bonacheirão. Mas nem só bonacheirão: foi um filósofo arredio e tímido. Um desses que, na selva selvaggia da vida, fogem com medo da sombra acoutadora dos importantes, da amizade refulgente dos ricos, da companhia decorativa dos poderosos. Desses que, ao contrário daqueles farfalhudos fariseus do Evangelho (tão atuais, Senhor!) que amam os primeiros lugares na sinagoga, grandes saudações no foro e serem chamados de mestres pelos homens, procuram apenas, no recato penumbroso da vida sem fragor, a companhia amorável e silenciosa dos livros.

E não fosse acaso essa modéstia, não fosse aquele impenitente negar-se a si mesmo, que brota com tanta freqüência das suas páginas, então, senhores Acadêmicos, João Ribeiro, ao contemplar, no fim do seu rude e bem caminhado jornadeio, os livros que escreveu, os ensinamentos que espalhou, as gerações que instruiu, poderia dizer, com justificada razão, tal como disse Horácio, no verso célebre, com o seu impávido orgulho latino:

exegi monumentum aere perennius.

* * *
Senhor Presidente! Dever meu seria, nesta noite, ao ter honra de sentar-me na poltrona 31, relembrar os nomes de Pedro Luís e de Luís Guimarães: Pedro Luís, o patrono da Cadeira, autor daqueles poemas flamantes, tão famosos no seu tempo, “Terribilis Dea” e “Os Voluntários da Morte”, poeta que, iniciando o movimento condoreiro da literatura brasileira, teve a glória de ser o precursor (e mesmo, em algumas poesias, o inspirador) de Castro Alves; Luís Guimarães, o primeiro ocupante da Cadeira, cantor finíssimo dos Corimbos e dos Sonetos e Rimas, aquele que, com a sua sensibilidade aristocrática, a sua profunda emotividade, tão docemente brasileiro, é um dos maiores, é um dos mais humanos, é um dos mais comovedores poetas líricos da língua. No entanto, vós bem o vistes, a personalidade de João Ribeiro, embora apenas debuxada, foi longa demais para que me sobejasse o tempo necessário ao cumprimento do gostoso dever. Mas Alcântara Machado, meu professor e amigo, professor que ontem me ensinava na Faculdade de Direito de São Paulo, amigo que hoje, por abençoada complacência dos fados, é o delegado que escolhestes para receber-me, em vosso nome, nesta Casa, Alcântara Machado, para delícia vossa, e com aquela sua ática finura, dir-vos-á dos donos desta Cadeira. E para que tenhais, sem mais delongas, o gosto de ouvir o paulista insigne, cujo nome honra e ilustra o meu Estado, eu vou abandonar a tribuna. Ao abandoná-la, contudo, senhor Presidente, seja-me concedido um instante ainda. Um instante só, rápido para deixar acentuado aqui, bem acentuado, esse papel preponderante, tão simpático, eminentemente unificador, que, nesta hora tumultuosa que vive o Brasil, está nobremente desempenhando a Academia Brasileira de Letras.

Vede, Senhores:
Aqui estou eu, homem do Sul, a fazer, bem ou mal, mas com sincero entusiasmo, o elogio de um homem do Norte, que, com o seu fecundo sentimento de brasilidade, serviu a Pátria, pelas letras, como os que mais a serviram. E isso tem, nos nossos dias, uma significação que carece ser frisada.
Senhor Presidente! O Brasil, no seu alvorecer, durante compridos anos, cresceu dividido em duas civilizações: uma, a do Norte, que se poderia chamar a civilização dos baianos; outra, a do Sul, que se poderia chamar a civilização dos paulistas. Uma, a civilização daquela gente de beira-mar, a civilização da cana-de-açúcar, a das casas-grandes, a que criou o patrimônio inestimável das cidades litorâneas; outra, a civilização daquela gente de além-serra, a civilização que desbravou os matagais, a da busca do ouro e do índio, a que criou o patrimônio territorial da nação. As duas greis, como vivendo em terras diversas, arredadas uma da outra, foram se desenvolvendo quase sem se conhecer. Mas eis que um dia os homens do Norte, deixando a orla do mar, avançaram mais atrevidamente pelo hinterland adentro. Subiram às águas do São Francisco. E, pousando às margens do rio solitário, acamparam-se por aquelas rechãs, onde, ermos e selvagens, se espraiavam campos largos de criação. E eis que os homens do Sul, arremetendo-se pelo horrificante sertão dos Cataguazes, hoje o Estado de Minas Gerais, também foram dar às margens do mesmo São Francisco, e, por desígnios de Deus, às mesmas rechãs, onde, ermos e selvagens, se espraiavam aqueles mesmos campos largos de criação. Foi então que, de um dia para o outro, as águas arrepeladas do grande rio viram, com surpresa, lhanos e fraternais, o vaqueiro do Norte, com o chapelão de palha, e o bandeirante do Sul, vestido de couro, apertarem-se calorosamente, como filhos da mesma Pátria, as mãos rudes e cerdosas. Deu-se naquele instante, meus Senhores, nas barrancas do rio lendário, que é o grande rio unificador da nacionalidade, o milagre estupendo: fundiram-se as duas greis. Confraternizaram-se. Ergueram ranchos lado a lado. Os seus filhos casaram-se entre si. E, dessa remota fusão, lá se foram pelo seu destino afora, amalgamados para todo o sempre, o Norte e o Sul da nação.

Meus Senhores, nós estamos aqui, neste momento, em que um escritor do Sul, pequeno embora, glorifica exaltadamente um insigne escritor do Norte, nós estamos aqui a repetir o milagre velho: confraternizando o Brasil. É que a Academia Brasileira de Letras, para o seu orgulho e para a sua glória, tornou-se hoje, nesta hora acesa da vida nacional, o rio São Francisco do pensamento brasileiro: nós todos estamos aqui acampados às margens das suas águas ilustres, a entretecer apertadamente, porque entretecemos com o espírito, os elos sagrados da nacionalidade.

Nenhum comentário:

Postar um comentário