terça-feira, 16 de outubro de 2018

É tão breve a vida…

JOSÉ RENATO NALINI 14/10/2018

Tristão de Athayde, pseudônimo de Alceu Amoroso Lima, foi um dos intelectuais mais completos que o Brasil já produziu. Começou a escrever como crítico literário, atividade que considerava alicerçada em um corpo de princípios, de uma concepção da vida, da arte e da literatura, em caráter docente.

Pois o crítico é um incentivador à leitura. Seu gosto, sensibilidade, emoção e espírito criador o vocacionam a gerar uma legião de leitores.

Uma das críticas de Tristão foi escrita em 1920 sobre o livro “Alma Cabocla”, de Paulo Setúbal. Encontra na poesia de Paulo Setúbal a emoção nesse momento impressionante em que ela se desprende da natureza, do cotidiano, do prosaísmo, para iniciar o seu caminho de arte.

Elogia a aproximação com a natureza, o amor à terra como dado essencial de uma poesia de claridade sedutora, de verdade cristalina, o amor à terra como paisagem.

Reproduz parte da produção de Setúbal:

“Tudo me entrista e punge nestas terras!
Os mesmos cafezais, as mesmas serras
E a mesma casa antiga da fazenda
Que outrora viu, quando éramos meninos
Nossos amores, nossos desatinos
Toda essa história já desfeita em lenda!
Era dezembro… Florescia o milho
Verde e glorioso como o nosso idílio…
Que lindas roças! Que estação aquela!
Toda a velha fazenda parecia
Com sua larga e rústica alegria
Mais cheia de aves, mais ruidosa e bela”!

Amoroso Lima saúda a chegada do “jovem poeta” e admira o caráter do sentimento da poesia, elaborada no momento em que a representação se substitui à sensação, para provar que a poesia não é mero sentimento, no estado puro, mas elaborado.

Ao rever a obra em 1947, Tristão anota: “Como são frágeis os vaticínios! Nunca mais ouvi falar desse poeta! Terá falecido? Terá silenciado? Terá sido tragado pelo cotidiano? Como tudo é melancólico e irônico!.

Paulo Setúbal continuou a escrever e enveredou-se por romances históricos. Integrou a Academia Paulista de Letras. Mas é verdade que poderia ser lembrado por sua poesia e por sua obra intelectual.

A vida é breve e mais curta ainda a memória dos pósteros, que só se preocupam com aquilo que mais lhes interessa de imediato e não têm tempo para o cultivo dos mortos ou para passear pela memória.


JOSÉ RENATO NALINI é reitor da Uniregistral, docente universitário, palestrante e autor de “Ética Geral e Profissional”, 13ª ed. – RT-Thomson

JOSÉ RENATO NALINI

Do site jj.com.br

sexta-feira, 2 de março de 2018

Paulo Setúbal como patrono

Americana SP - Rua Paulo Setúbal, Vila Santa Inês.
Atibaia SP - Rua Paulo Setúbal, bairro Jardim Cerejeiras.
Campinas SP - Rua Paulo Setúbal, Botafogo.
Chopinzinho PR - Ginásio Paulo Setúbal (o primeiro colégio do município).
Curitiba PR - Rua Paulo Setúbal, bairro Hauer / Boqueirão.
Fortaleza CE - Rua Paulo Paulo Setúbal, Bairro Messejana.
Jundiaí SP - Rua Paulo Setúbal.
Piracicaba SP - Rua Paulo Setúbal, Vila Independência.
Ponta Grossa PR - Rua Paulo Setúbal, bairro Uvaranas.
Porto Alegre RS - Rua Paulo Setúbal, Passo d'Areia.
Praia Grande SP - Rua Paulo Setúbal, Esmeralda.
Rio de Janeiro RJ - Praça Paulo Setúbal, Vila da Penha, Zona Norte.
Rolândia PR - Rua Paulo Setúbal.
São José do Rio Preto SP - Rua Paulo Setúbal, Vila Santa Cruz.
São José dos Campos SP - Rua Paulo Setúbal, Jardim São Dimas.
São Paulo SP - Biblioteca Paulo Setúbal.
Sorocaba SP - Rua Paulo Setúbal, Vila Hortência.
Tatuí SP - Praça Paulo Setúbal.
Tatuí SP - Museu Histórico Paulo Setúbal.
Tatuí SP - Semana de Paulo Setúbal.
Ubatuba SP - Rua Paulo Setúbal, Remanso do Mar.
Valinhos SP - Rua Paulo Setúbal.
Vitória da Conquista BA - Escola Paulo Setúbal

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A vida cultural Atibaiana

Jornal da Cidade - Atibara SP Acesso 17/01/2017 10:19 horas

A propósito da inauguração do Centro Cultural “André Carneiro”, instalado pela prefeitura na praça da Matriz, prevista para 27/01/2018, apresentamos uma retrospectiva, rápida e superficial, das manifestações culturais promovidas através dos tempos. 

As atividades ocorreram nas escolas públicas e privadas, nas igrejas, nas associações civis e nos estúdios particulares.

Poesia, prosa e teatro. Atibaia recebeu a visita dos consagrados escritores Francisco Silveira Bueno, Amadeu Amaral, Paulo Setúbal, Mário de Andrade, além do artista plástico Benedito Calixto. Marcaram a presença deixando escritos, pinturas e ditos alusivos à beleza, religiosidade e cultura popular.

A imprensa anotou a atuação de Aprígio de Toledo, que incentivos debates literários no Gabinete de Leitura. Preparou atores e montou peças no Teatro do Largo do Mercado. Orador de verve, culto e eloquente, representou diversas associações do município.

Porém, até hoje, não mereceu dos órgãos públicos se lhe recolhesse e publicasse os textos esparsos à disposição nas colunas dos jornais e nos arquivos históricos.

Em meados do século passado a Associação Amigos de Atibaia montou uma biblioteca para doação ao município. Os edis vetaram. Dulce Carneiro, articulista do jornal de A Gazeta, de grande circulação na capital paulista, publicou matéria alusiva. Concluiu que se Atibaia é o “paraíso quase possível na terra” (Amadeu Amaral), o quase é por conta e risco dos vereadores.

Manifestações teatrais. Surgiu o grupo teatral Atibaia Viva, coordenado pelo ator e diretor Osvaldo Barreto Filho; O Corpo Municipal de Teatro; Grupo de Teatro Aletheia; Escola de Atores Residência Antaud, com direção geral de Wellington Duran; Cia. Maschera, bonecos de mamulengo, do Leonardo Garcia e Giorgia Goldani; Grupo Arcênicos Atibaia, dirigido por Durval Mantovaninni; ATA –Associação Teatral de Atibaia e Observatório Cultural Mazu, da atriz e diretora Sílvia Masulo, . 
Cinemas. Todas as pessoas, - não importava a condição social - corriam aos encantamentos mágicos das sessões de cinema. No começo as exibições aconteciam em praça pública através de empresas itinerantes. Depois, a partir de 1903, os empreendedores da província construíram e instalaram salas confortáveis e apropriadas, mediante nomes diversos: Cine Pavilhão, Recreio Cinema , Nordisk Cinema, Cine Central, Cinema Atibaiense, Cine Theatro República, Trianon Cinema e Cine Paratodos, Cine Itá, Cina Paraiso, Cine Atibaia. As casas eras inauguradas às pressas. Não demorava muito fecharem as portas. Muitas reabriam depois de ampla reforma do prédio. Os equipamentos modernizavam-se e o público exigia melhorias e confortos, nem sempre viáveis economicamente.

Contou-me o Valdir Gaborim da existência de uma cinema no bairro do Tanque, instalado próximo à estação do trem da braantina. Era o Cine Carolina, ao que se sabe de propriedade de Carlos Del Nero.

A origem do nome “Cine Theatro República” é intrigante. Pertenceu ao major Juvenal Alvim. Desde logo, se imagina ocorresse em homenagem e profissão de fé no regime republicano. Muitos, entretanto, atribuem a homenagem à distribuidora de películas “Republic Pictures”, devido a águia americana de argamassa, pousada no frontispício do prédio. Entretanto, o cinema foi inaugurado em 1926 e a distribuidora foi constituída em 1935. 

Nos primeiros tempos os filmes eram mudos e projetados da sacada do Clube Recreativo Atibaiano contra as paredes da praça Claudino Alves. Era o “Cinema Paradiso” atibaiense, imortalizado pelo cineasta italiano Giuseppe Tornator, porém, sem qualquer censura religiosa. Nos raros filmes impróprios para menores de 18 anos o Juizado facilitava o ingresso, desde que o adolescente portasse constituição física espigada . 

Nas salas os filmes (mudos) eram projetados por trás das telas, que, por isso, eram permanentemente molhadas para manter a transparência. Nos longos intervalos as famílias abriam as sacolas e comiam lanches com ares de piquenique. Os vendedores de pipoca, amendoim, pirulito, balas e doces circulavam pela plateia oferecendo guloseimas expostas numa cesta grande, atada numa tira apoiada no pescoço. Havia música ambiente ao vivo, executada por instrumentistas emprestados das bandas de música. No saguão de espera as peças musicais eram ligeiras. Na sala de espetáculo quase sempre se apresentavam obras clássicas. 

Logo chegou o cinema falado. Os aparelhos de som, quase sempre de má qualidade, esganiçavam a voz dos artistas. Entretanto, conseguia-se distinguir perfeitamente a voz aveludada das famosas divas (musas) do cinema. O ardido sotaque texano do Gordo (ator norte-americano Oliver Hardy) contrastava com o refino vocal do Magro (ator inglês Stan Laurel). Ria-se muito com as gagues.

Os filmes em cartaz eram comentados nos alpendres das residências para melhor entendimento da trama. Os vizinhos se achegavam. Os diálogos cinematográficos eram em língua estrangeira e poucos espectadores acompanhavam e entendiam as legendas em português. As dublagens não existiam. Todavia, as colônias de origem europeias, principalmente a italiana, esbaldavam-se com as produções patrícias.

Ninguém se conformava com os personagens em situação de miséria, desempregado, que ostentavam uma casa bem mobiliada, dotada de eletrodomésticos, TVs e automóvel na garagem. Nem o mais rico atibaiense jamais sonhara com tal luxo! O fato denunciava o desnível de renda e riqueza entre os países desenvolvidos e pobres.

As piadas grassavam soltas nas rodas de amigos . Nos filmes de caubói dizia-se que os matutos portavam revólver no cinema caso os bandidos apontassem na direção da plateia. Legítima defesa putativa, explicam os juristas.

A política rondava os cinemas. Os grupos antagônicos mantinham casas exibidoras próprias. O Cine Trianon, dos irmãos Titarelli, era frequentado pelos filiados ao Partido Democrático, depois Partido Constitucionalista, em oposição à política do Major Alvim. Estes integravam o Partido Liberal, depois Partido Republicano Paulista.

A tecnologia evoluiu. A vida cultural se deteriorou. Espera-se que a o Centro de Cultura “André Carneiro” e o Cine Itá Cultural, espaços públicos, possam retomar os espetáculos de boa qualidade perdidos há muito tempo nas profundezas do desinteresse governamental,











Gilberto Santanna
gilbertosant@terra.com.br
Gilberto Sant´Anna é advogado e ex-prefeito de Atibaia.
Contato: gilbertosant@terra.com.br

domingo, 15 de outubro de 2017

Sucessão de Paulo Setúbal na ABL teve consulta popular

José Mario Pereira: Consulta popular em eleição na ABL

A volta de concursos como os promovidos pela revista O Malho animariam positivamente a nossa vida literária

Por Augusto Nunes, em Veja

Vez por outra, quando surge uma vaga na Academia Brasileira de Letras, os jornais se apressam em anunciar os possíveis candidatos, os colunistas tratam de evidenciar a simpatia e a articulação a favor de um ou outro postulante, mas a nenhum diretor de jornal ou revista de circulação nacional ocorre consultar a opinião pública a respeito do tema. Falo aqui de um largo exercício de democracia participativa, da realização de uma consulta, com regras estabelecidas de votação, comissão apuradora, e tudo o mais que comporta uma eleição séria, com garantia de credibilidade respaldada por uma rigorosa auditoria. Tendo a crer que muitos acadêmicos, se consultados sobre esse assunto, responderiam que a ideia não faz sentido, considerando que somente aos membros da Casa de Machado de Assis cabe opinar e decidir sobre a escolha de um novo imortal.

Acabo de desencavar, porém, os documentos de uma saudável manifestação que vai na contramão desse tradicional comportamento. Ou seja, pelo menos uma vez já se fez consulta pública sobre a questão, patrocinada por respeitável órgão de imprensa, no sentido de sondar o sentimento e a vontade popular a respeito de quem merecia ser incorporado ao prestigioso cenáculo das letras nacionais. A ideia foi posta em prática há 80 anos, logo após o falecimento do escritor e advogado Paulo Setúbal, a 4 de maio de 1937, quando a cadeira de nº 31 foi declarada vaga. Então a revista semanal O Malho, que circulou de 1902 a 1954, e cuja redação funcionava na Travessa do Ouvidor, nº 34, no Centro do Rio, tratou de anunciar, em 22 de maio, que faria uma consulta junto aos leitores de todo o país com o objetivo de identificar quem deveria suceder, na ABL, ao morto ilustre. Uma semana depois publicavam as “Bases” do concurso:
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1. A votação terá a duração justa de cem dias, a começar de 20 de maio e terminando a 25 de agosto vindouro. Semanalmente O Malho divulgará as apurações parciais e o resultado final, com proclamação do nome vitorioso na edição do dia 9 de setembro, data em que se realiza, precisamente, na Academia Brasileira de Letras a eleição para preenchimento da vaga de Paulo Setúbal.

2. Cada leitor poderá remeter o número de votos que desejar. Só não é permitido justificar o voto, ou assiná-lo.

3. As apurações serão feitas semanalmente em nossa redação, podendo ser acompanhadas pelos interessados. A apuração final terá lugar no dia 31 de agosto.

4. O intelectual que receber o maior número de votos será homenageado pelo O Malho de forma condigna, e de modo a se fazer ressaltar a significação da sua vitória.

5. Podem ser votados todos os intelectuais vivos do Brasil, exceção feita, naturalmente, dos que já fazem parte da Academia Brasileira de Letras.

A iniciativa alcançou de imediato ampla aceitação. Já em 19 de junho, João Paraguassu, mobilizado pelo tema, escrevia no Correio da Manhã a crônica “A cadeira 41…”, que pela objetividade, e hoje difícil localização, merece transcrição integral:

A Academia Brasileira está voltando a ser objeto de intensas cogitações no nosso microcosmo intelectual. Fala-se, é certo, ainda muito mal dela, mas já se fala algum bem e com mais simpatia. O Malho tem contribuído para isso com os seus concursos. O do naufrágio [sic] dos poetas foi um dos mais interessantes, e dele se salvaram vários nomes que muita gente supunha no rol do esquecimento.

O outro foi o da questão da entrada da mulher no cenáculo. E dessa vez de novo os leitores daquele semanário fizeram obra sensata apontando as merecedoras de um lugar no Olimpo, e forçaram os moradores da casa de Machado de Assis a opinar favoravelmente, em maioria, o que valeu por uma interpretação do texto estatutário fora das quatro paredes do Petit Trianon.

Agora, outro movimento de O Malho agita o mundo dos letrados e focaliza a Academia. É um verdadeiro plebiscito. Quem deverá preencher a vaga de Paulo Setúbal?… As respostas vão surgindo. As preferências se manifestam. Em torno da memória do autor dos nossos melhores romances históricos, do reconstituidor das cenas da conquista do ouro e da caça ao índio, se alvoroçam os partidários dos capazes de receber-lhe o legado ilustre.

O fato deve ser apreciado, porém, pelas suas consequências. De entre os muitos sufragados, um sairá triunfante. Coincidirá a láurea popular com as inclinações acadêmicas?… Se isso acontecesse, seria uma sorte grande para a Academia, porque ela poderia proclamar a sua concordância absoluta com os brasileiros que leem…

Mas não entremos no campo dos vaticínios. Fiquemos na praça. E admitamos que o povo eleja um acadêmico para a “cadeira 41”, aquela em que costumam sentar-se os que nunca se apresentam, e acreditam nas promessas de votos que lhes fazem quase todos, mais ou menos nestes termos:

̶ Se você se apresentar, conte com o meu voto…

Conversa, apenas.

Na primeira apuração parcial Martins Fontes recebeu 11 votos, Plínio Salgado, 9, e Viriato Corrêa 3. A sexta se deu em 1º de julho e trazia o contista Cristovam de Camargo, do Pen Clube, liderando a prova com 151 votos. Na décima segunda o poeta paulista Cassiano Ricardo ficou em primeiro lugar com 998 votos, contra 880 dados a Plínio Salgado, e 398 a Catulo da Paixão Cearense. Na ocasião outros 61 profissionais das letras foram lembrados, incluindo escritoras como Carolina Nabuco e Henriqueta Lisboa (ambas com 18 votos, e isso quando ainda não era permitida às mulheres a glória acadêmica), e futuros membros da ABL como José Américo de Almeida (114), Viriato Correa (77), Oswaldo Orico (28), Gilberto Amado (11) e Pontes de Miranda (10). Nessa apuração sete foram as personalidades que contabilizaram o menor número de votos (4), entre as quais destaco, pelo exotismo dos nomes, e por serem hoje totalmente desconhecidos, Ilnah Secundino, Leal de Souza e Mahatma Patiala (!), pseudônimo de Ariosto Palombo, mais conhecido como João de Minas (que com este nome teve 6 votos na apuração final, enquanto Patiala chegou aos 16).

A décima terceira apuração parcial deu-se em 9 de agosto, quando Cassiano obteve 1.317 votos, Plínio 1.229, e Catulo, 484. Curiosamente Ilnah, Leal e Patiala continuaram no páreo com os mesmos quatro votos obtidos anteriormente. O anônimo redator da revista aproveita a ocasião para informar: “Publicamos hoje a última cédula para votação, e ainda achamos de bom aviso repetir que só serão apurados, no final do certame, os votos que estiverem em nosso poder até o dia 25 do corrente às 18 horas”.

O número de 26 de agosto de O Malho, que presta contas da décima quarta apuração, traz uma surpresa: Plínio Salgado tomara a dianteira, com 1.635 votos, contra os 1.570 de Cassiano e os 497 de Catulo, que continuava firme no terceiro lugar. O resultado final, no entanto, só seria conhecido em 31 de agosto, referendado por laudo assinado pela Comissão Verificadora, “composta dos brilhantes jornalistas Herbert Moses, presidente da ABI, M. Paulo Filho, diretor do Correio da Manhã, Roberto Marinho, diretor de O Globo [ele viria a ser eleito para a ABL em 22 de julho de 1993], e Orlando Dantas, diretor do Diário de Notícias”.

Mas quem, afinal, foi o ungido na ampla consulta popular, com vistas à ocupação da vaga acadêmica, nessa tentativa de um importante veículo de comunicação influenciar a escolha do próximo integrante da ABL? Pasmem: a láurea coube a Plínio Salgado, com espantosos 3.450 votos, mais de duas vezes o total recebido na votação anterior; e isso provavelmente se deu porque os integralistas, na reta final, despejaram o maior número possível de votos na urna do seu condottiero. A revista imediatamente estampou uma imensa foto do personagem, que aparece vestido com a farda do Integralismo, tendo num dos braços a faixa com o sigma, símbolo do movimento. Em comentário não assinado, louvando os talentos do vitorioso, O Malho afirma:

Em 1916 [Plínio Salgado] publicou seu primeiro livro, o romance O estrangeiro, que foi muito discutido e recebeu elogios dos mais notáveis críticos do país.

Essa vitória nas letras foi o ponto de partida para uma grande atividade intelectual, através a qual [sic] se revelou um dos mais firmes manejadores da pena. Jornalista, escritor de ficção, pregador doutrinário, a um tempo, sob qualquer dessas formas se tem revelado homem de cultura, capaz de enfrentar as polêmicas mais sérias como de defender pontos de vista e teorias, com brilho de forma e recursos de inteligência.

Chefiando hoje um grande partido político, goza no país de inegável popularidade e prestígio, e seus livros são publicados em edições sucessivas que se esgotam com rapidez.

O segundo lugar, com 1.927 votos, coube a Cassiano, figura de destaque na estrutura intelectual do Estado Novo. O terceiro posto, devido a 856 eleitores, permaneceu com Catulo. É interessante atentar para o desempenho de futuros acadêmicos na computação final: José Américo de Almeida (190 votos), Oswaldo Orico (114), Viriato Corrêa (91), Josué Montello, que não aparecia anteriormente (16), Gilberto Amado (11), Pontes de Miranda (10), Menotti Del Picchia (3) e Manuel Bandeira (1). É preciso também acentuar, na lista decisiva, a presença de escritores que nunca entraram para a ABL, seja porque não conseguiram se eleger, como se deu com Bastos Tigre (360) e com o poeta Jorge de Lima (13), seja pelo fato de jamais terem se candidatado. Entre os mais relevantes desse último contingente, nas letras e na política, merecem destaque: Henriqueta Lisboa (49), Carolina Nabuco (27), Rosalina Coelho Lisboa (12), Gilka Machado (12), Graciliano Ramos (10), Afrânio de Melo Franco (3), Luiz da Câmara Cascudo (2), Francisco Campos (1) e Gilberto Freyre (1).

A surpresa que se seguiu à manifestação pública de apreço às qualidades intelectuais de Plínio Salgado foi sua decisão de não concorrer à sucessão de Paulo Setúbal. O que terá pautado esse gesto? O sentimento de que uma disputa para a ABL pode ser mais difícil e cheia de surpresas do que uma eleição para o Senado ou a Câmara dos Deputados? A interrogação se torna ainda mais pertinente quando se toma conhecimento dos fatos que se seguiram: Cassiano Ricardo, o autor de Martim Cererê, foi eleito acadêmico no quarto e último escrutínio, com 18 votos, em 9 de setembro de 1937, tendo por concorrentes Viriato Corrêa (3), Bastos Tigre (4), Jorge de Lima (5) e Basílio de Magalhães (3), o único que não aparece em nenhuma das votações promovidas por O Malho. A revista informa que Sílvio Júlio, que recebera apenas um voto, também concorreu, mas retirou sua inscrição antes do pleito.

No número de 16 de setembro, O Malho se congratula com seus leitores e com a ABL pela inclusão de Cassiano aos seus quadros, e acentua:

Não pomos dúvida alguma de que muito tenham influenciado sobre os membros da Academia as ponderações que aqui temos expendido, muito embora o nome do eleito e o seu valor literário não sejam daqueles que, para se imporem, necessitem de campanhas como a que realizamos e que vem agora se cobrir de êxito.

Dissemos em nossa edição passada que qualquer dos candidatos inscritos estava à altura de ser eleito e por isso mesmo a Academia talvez acabasse por recusá-los a todos para preferir um medalhão político [grifo nosso]. Felizmente, porém, nosso prognóstico não se realizou e a cadeira que Paulo Setúbal ocupou, por tão pouco tempo mas tão brilhantemente, vai receber agora uma das legítimas expressões da inteligência e da poesia patrícias.

O Malho está vitorioso, e a grande massa de seus leitores se pode orgulhar de ter feito com que a Academia Brasileira de Letras retomasse, pelo menos por esta vez, o único caminho que poderá levá-la a reabilitar-se com o público brasileiro, se continua a ser trilhado [grifo nosso].

Afora a saudação ao novo imortal, paulista de São José dos Campos, o público da revista foi brindado com a foto do homenageado. Já a edição de 7 de outubro transcreve a carta de agradecimento que Cassiano enviou de São Paulo, datada de 22 de setembro, ao “meu caro redator”, na qual agradece a atenção a ele dispensada, e por fim ressalta ter sido nas páginas de O Malho que, há 20 anos, estreara na literatura.

Bem fariam os nossos diretores de redação, sempre que a ocasião se apresentasse, se cuidassem de reeditar a iniciativa de Antônio A. de Souza e Silva, diretor de O Malho, aperfeiçoando o mais possível as técnicas de aferição quanto às potencialidades eleitorais dos escritores dispostos a lutar por uma vaga na Casa de Machado de Assis. Levando-se em conta que toda Academia tem algo de clube em que os sócios se reúnem na expectativa de um agradável convívio, e que o eleito não pode ser nunca mais excluído, seria recomendável — inclusive para a orientação dos votantes desavisados — que os jornais e revistas publicassem perfis dos candidatos, não só tratando de suas qualidades literárias e obra editada, mas também com dados sobre o temperamento e a personalidade de cada um. Esse procedimento ajudaria, e muito, a prevenir a entrada na ABL de escritor ou notável de difícil trato, capaz de incomodar, seja física, verbalmente, ou por escrito, seus futuros companheiros no Petit Trianon. Creio que a volta de concursos como os promovidos pela revista O Malho animariam positivamente a nossa vida literária, mobilizando leitores e intelectuais, tornando ainda mais glamourosos a Academia Brasileira de Letras e os seus imortais.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

PAULO SETÚBAL


Terceiro ocupante da Cadeira 31, eleito em 6 de dezembro de 1934, na sucessão de João Ribeiro e recebido pelo Acadêmico Alcântara Machado em 27 de julho de 1935.

Paulo Setúbal (P. S. de Oliveira) [sic], advogado, jornalista, ensaísta, poeta e romancista, nasceu em Tatuí, SP, em 1º de janeiro de 1893, e faleceu em São Paulo, SP, em 4 de maio de 1937.

Órfão de pai aos quatro anos, sua mãe cuidou sozinha de nove filhos pequenos. Ela colocou o pequeno Paulo como interno no colégio do seu Chico Pereira e começou a trabalhar para viver e sustentar os filhos. Transferindo-se com a família para São Paulo, o adolescente Paulo entrou para o Ginásio Nossa Senhora do Carmo, dos irmãos maristas, onde estudou durante seis anos. Aí começou o interesse pela literatura e pela filosofia. Leu Kant, Spinoza, Rousseau, Schopenhauer, Voltaire e Nietzsche. Na literatura, influenciou-o sobretudo a leitura de Guerra Junqueiro e Antero de Quental. Muitas passagens do seu primeiro livro de poesias, Alma cabocla, lembram a Musa em férias de Guerra Junqueiro.

Esse período de sua vida é de franco e desenfreado ateísmo. Fez o curso de Direito em São Paulo. Ainda freqüentava o 2º ano quando decidiu fazer-se jornalista. Era a época da campanha civilista quando foi procurar emprego no diário A Tarde. Lá ingressou como revisor; logo a seguir, a publicação de uma de suas poesias naquele jornal deu-lhe notoriedade imediata, e ele ganhou sua primeira coluna como redator. Já nessa época começava a sentir os sinais da tuberculose que iria obrigá-lo a freqüentes interrupções no trabalho, para repouso.

Concluído o curso de Direito em 1915, iniciou carreira na advocacia em São Paulo. Em 1918, devido à gripe espanhola, Paulo Setúbal partiu para Lages, em Santa Catarina, onde morava o irmão mais velho, e lá tornou-se um advogado bem-sucedido. Levava, porém, uma vida dissoluta, às voltas com mulheres e com o jogo. Cansado de tudo, voltou para São Paulo, e também lá se estabeleceu como advogado.

Iniciou-se, então, a principal fase de sua produção literária, que o levaria a ser o escritor mais lido do país. Destaca-se, especialmente, pelo gênero do romance histórico, com A marquesa de Santos (1925) e O príncipe de Nassau (1926). Sabia como romancear os fatos do passado, tornando-os vivos e agradáveis à leitura. Os sucessivos livros que escreveu sobre o ciclo das bandeiras, a começar com O ouro de Cuiabá (1933) até O sonho das esmeraldas (1935), tinham o sentido social de levantar o orgulho do povo bandeirante na fase pós-Revolução constitucionalista (1932) em São Paulo, trazendo o passado em socorro do presente.

Em 1935, Paulo Setúbal chegou ao apogeu, sendo consagrado pela Academia Brasileira de Letras. Mas, nesse mesmo 1935 ele ingressa em nova fase da crise espiritual que vinha de longe e que terá repercussão em sua literatura. O temperamento sociável, expansivo e alegre; o freqüentador de festas e reuniões dava lugar ao homem introspectivo, vivendo apenas cercado da família e dos amigos mais próximos. Aos problemas crônicos de saúde acrescentava-se a minagem psicológica ocasionada pela desilusão com os rumos da política e consigo mesmo. Entrou a freqüentar fervorosamente a igreja da Imaculada Conceição, perto de sua residência em São Paulo, e a ler a Bíblia e livros como a Psicologia da fé e A imitação de Cristo. É quando escreve o Confíteor, livro de memórias, a narrativa de sua conversão, que ficou inacabado.

___________
Nota: Na biografia da Academia Brasileira de Letras há um equívoco: deveria constar P. de O. Setúbal (Paulo de Oliveira Setúbal) e não P. S. de Oliveira.

Os Setúbal, de Tatuí

Escrito por José Maria dos Santos

Foto: Paulo (no alto), Olavo, Roberto e Maria Alice Setúbal. / Reprodução

DIÁRIO DO COMÉRCIO - As comemorações de 90 anos do Grupo Itaú estão fazendo emergir a figura do escritor Paulo Setúbal (1893-1937). Na sua cidade, Tatuí, a 131 km da Capital, ele mereceu um museu ao qual emprestou o nome, que guarda, entre outros pertences pessoais, o seu fardão de imortal da Academia Brasileira de Letras. Os cerca de 5 mil visitantes mensais à casa mostram que Paulo não foi esquecido. No entanto, com certeza, é bem menos conhecido do que seu filho, Olavo Setúbal (1923- 2008), prefeito de São Paulo (1975-79) e ex-chanceler, mas, sobretudo, respeitado por haver dirigido e expandido às alturas o Grupo Itaú.

Paulo é um escritor de várias facetas, mas se destacou particularmente nos romances históricos. A Marquesa de Santos e As maluquices do Imperador que narram saborosamente as aventuras pessoais e políticas de Dom Pedro I. E aqui é justo destacar a sensibilidade do escritor em deitar luzes sobre essa curiosa personagem que gostava de tocar bombardino e que, disfarçado, ia praticar sua música em ronda noturna pelos botequins do Rio de Janeiro. Esses livros abriram espaço no Brasil para esse seguimento contemporâneo da historiografia que trata da história do cotidiano, bem representado pelo jornalista Laurentino Gomes. Graças a ele, figuras como Chalaça, assessor para assuntos femininos e boêmios do imperador ou a própria marquesa, Domitila de Castro, deixaram o anonimato para se transformar até em bons filmes.

O Grupo Itaú – que possui duas agências em Tatuí – poucas relações tem com a cidade. Porém, a família Setúbal se faz presente. É ela que patrocina a Semana Paulo Setúbal, iniciada a cada ano em 11 de agosto, com programação variada e concurso literário. "Eles sempre têm contato com Tatuí", informa Jorge Rizek, 63 anos, diretor-cultural da Prefeitura e responsável pelas atividades da Semana. A propósito, Olavo teve sete filhos com Tide Setúbal, dos quais se destacam dois pelo protagonismo: Roberto, atual dirigente do grupo e a educadora Maria Alice, a Neca, que está bem falada no momento por ser coordenadora do programa de governo de Marina Silva.